segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eram mansos, os loucos de minha terra.

Faço um brinde a vocês, meus caros e pacientes leitores, com uma singela crônica feita, à toa, há alguns anos...

Eram mansos, os loucos de minha terra !
Geralmente eram. Salvo, raríssímas exceções de uns poucos mais enfezados; daqueles que jogavam pedras nos meninos, em resposta, troca, a certos insistentes chamamentos chistosos de odiados apelidos mordazes, feitos por estas turmas da segunda infância, e cujas estrepolias faziam o contraponto na quebra da monotonia daqueles lugarejos ermos, perdidos no passado; vivos apenas nas reentrâncias da memória; teimam, no entanto, como um moribundo que luta para manter-se vivo, a todo custo manter a sua história. Outros não!, não esboçam a menor irritação ao serem abordados. São loucos mansos, destrambelhados da bola - à grande maioria. Pacatos por natureza!... débeis mentais, retardados - como queiram. O Capitão José Alves da Costa, meu avô, sertanejo de boa cepa, experiente, de anos bem vividos, definia com muita justeza às pessoas que apresentavam os denunciantes indícios de retardo mental. "Meu filho! - dizia ele -, "essa pessoa nasceu e cresceu "atrufiada"? Coitado!...” Destas assertivas, por vezes, até alguns parentes chegados, não escapavam. Nas famílias mais antigas destes lugarejos de desbravadores, vamos sempre encontrar, algum indivíduo com alguma desordem física ou mental. Feitas às observações, deduziu-se, por longas experiências no decorrer de anos a fio - centenas deles -, que tais fatos aconteciam e acontecem devido a casamentos ou acasalamentos entre parentes muito próximos, onde os malefícios consangüíneos de tais junções, se fazem notar implacavelmente. Resultado: abilôlados, aos montes! Vítimas, como vimos, do desejo incontrolável do homem em ocupar novos espaços, em regiões remotas, de pouco ou nenhum contato com o mundo civilizado. Os casamentos, então, eram efetuados e celebrados no seio da parentela, frutos do mesmo ambiente. Tais himeneus ou mancebia, resultavam por vezes em prole frustrante.
* * *
No meio destas "peças com defeitos de fabricação", vamos encontrar nos primeiros lustros do século XX a presença impar do impagável Mane Télo. Este cidadão, "doidelo" por natureza, analfabeto, tinha o corpo pequeno e magro; de tez branca (à galega) queimada ao sol. Era incapaz de assumir qualquer atividade laboriosa; vivia, como era de se esperar, da caridade dos seus contemporâneos. Gozava de livre acesso às Fazendas e aos Sítios das várias cidades da região de Seridó Norte-rio-grandense. Existem dúvidas quanto ao local do seu nascimento. Alguns acham que ele nasceu para os lados da Fazenda São Roque, entre os municípios de Jardim do Seridó e Ouro Branco. Outros discordam, dando-lhe outra origem. Mané Télo era um vivente muito engraçado e perspicaz ao seu estilo. Afora alguns impropérios que distribuía aos meninos vadios, que, como vespas, o incomodavam com achincalhes e "pantíns", passava o tempo falando consigo mesmo a respeito de palpites de jogo de bicho: "sunhei cum arubú, o bicho de hoje é águia ou avestrui!” “Topei cum gato preto, hoje dinoite dá lião" E assim, ensimesmado num convercê íntimo, passava horas a fio numa algaravia medonha.
Apesar de maluco, possuía o dom da poesia; era um poeta popular e fazia com facilidade algumas "quadrinhas".
Certa vez - falam as bocas do domínio público -, vinha Mane Télo deslocando-se, a pé, como de costume, na zona rural de um Sítio para outro, quando encontrou-se com um menino muito feio. Imediatamente Mane indagou de quem ele era filho, obtendo como resposta que era filho de Mané Garcia. Passou-se..., seguiu em frente..., lá mais adiante, encontrou outro moleque que era mais feio do que o anterior. Perguntou-lhe: - você é fie de quem? Sou fie de Mané Garcia - respondeu-lhe o fedelho. Seguiu caminhando, no seu monólogo íntimo, quando por trote do destino topou com mais um filho de Mané Garcia que, se é que podia, era ainda mais feio que os dois primeiros. Tabulou uma conversa, e, quando descobriu quem ele era, saiu-se com este "repente"- uma pérola:

“Buraco em pau é oco,
Gancho de pau é furquia:
Toda “marmota” quêu vejo
É fie de Mané Garcia!...”

Doutra feita, fato relatado pelo Sr. Francisco Godofredo, da cidade de Caicó, Mane Télo chegou a um determinado Sítio, quando o proprietário, por farra, sabedor da inapetência para o trabalho ( preguiça ) que aquele desmiolado era portador, mostrou-se muito alegre ao vê-lo, dizendo que a ocasião daquela visita era muito oportuna, pois ele estava precisando de uma pessoa para carregar umas linhas, de um determinado local pra outro da sua Propriedade: - Você faz isso pra mim, Mane ? - perguntou o rurícula.
- Faço, - respondeu Mane Télo, de pronto.
Deslocaram-se, junto a outros curiosos, para um armazém onde se encontravam guardadas várias linhas e troncos de carnaúbas, coqueiros, angicos, etc., e lá, apontaram para os pesados toros de madeira e disseram: - Pronto, Mané, pode começar a carregar!
- Naã!..., eu pensei quéra linha de CARRITÉ!", - respondeu, na bucha, o sabido Mane Télo, apesar de maluco.
Natal-RN, 13 de Dezembro de 2005.
Gibson Azevedo da Costa

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Debut no sarau poético

Senhores..., senhoras meus saudares...
Sou Gibson Azevedo da Costa, Cirurgião dentista radicado nesta belíssima cidade há precisamente quarenta anos. Tenho por Natal uma paixão especial, só encontrada nos raros casos de pura mancebia, por vezes, de trágicos desdobramentos. Mas na poesia tragédia é o que não falta; e é bom que assim continue, pois como disse certa vez o poeta Chileno Pablo Neruda: fazer poesia, nada mais é do que enxergar as verdades onde elas existam, geralmente indignando-se com o status quo, e, externando-as com metáforas sucintas e precisas. Na realidade, o poeta não tem necessidade de ser simpático, de ser bom; ele tem, tão somente, a obrigação imutável de ser verdadeiro. Aí teremos uma poesia! Aí teremos um poeta.
Recebi do colega e amigo Rubens Barros de Azevedo, há algum tempo, o convite de participar deste simpático sarau; o que faço agora com muito gosto. Dizeres populares já não alardeiam, que: antes tarde de que nunca? Pois bem, “eis me aqui...., se vos sirvo aqui estou” , como já dizia, alhures, um certo poeta Russo.
Já que aqui estou, aproveito a oportunidade para demonstrar que a poesia pode apresentar-se de várias maneiras; e não será por isto: uma maior ou menor poesia. Exemplifico com dois poemas meus, que os fiz muito a propósito na forma de versos livre e também na forma metrificada e rimada. Vejam que dizem a mesma coisa, só que, com os arranjos diferentes; sem, contudo, perderem a emoção. Chamam-se: Ação do tempo...

Para o meu desgosto
O tempo passou...
Deixou marcas no meu rosto,
Mas não foram as mais profundas.
Conservou feridas abertas
Que pouco percebe-se no entanto;
- São as que verdadeiramente doem.
Surpreendo-me pensando...
E o tempo, mais e mais, passando...
O que restou?... Nada..., quase nada...,
Marcas no rosto,
Para meu desgosto!

Natal-RN 17/11/ 2006
Gibson Azevedo - poeta


Vejo o ocaso chegando,
No Tempo, penso e medito:
Este déspota maldito,
Que mais e mais vai passando...
Intimamente marcando,
Deixando, a contragosto,
Perplexidade e desgosto,
Numa existência fanada...
Restando, bem pouco ou nada:
Tristeza e marcas no rosto!


Natal-RN, 06/12/2006
Gibson azevedo-poeta

terça-feira, 23 de junho de 2009

Algumas reflexões

Habemus Stadium

Na falta de expressão melhor, sirvo-me desta, oriunda da língua mãe que, bondosa e abrangente como é, nunca nos falta, mesmo para nomear fatos novos; ocasião na qual os mais posudos e modernos léxicos encontram dificuldade de dar-lhe o real significado. Então, encontramos, no bom velho Latim, resposta para os fatos mais estranhos e alienígenas que possamos se nos deparar.
Habemus Stadium – esta expressão só agora veio à tona depois de muitos convercêres (convícios conversíveis) que se nos expuseram, às tulhas, nas últimas semanas, após o pirotécnico anuncio dos nomes das cidades sedes para a Copa do Mundo de Futebol do ano de 2014. Ora! Vivas! Foi o que todos disseram... Todos entrementes só olharam para o próprio umbigo; só, e somente só, pensaram nas próprias vantagens que podiam subtrair da notícia inusitada. Não se teve naquele momento o mínimo de humildade; a soberba assomou-se-lhes aos pensamentos, adonando-se dos seus seres. Todos, demonstrando exímio preparo, encontraram resposta para tudo: “Faremos isto; faremos aquilo; demoliremos tal estrutura; ergueremos a tempo tal projeto...; o problema da infra-estrutura de tal setor já está parcialmente solucionado, etc. etc.
Bem, ante a azáfama de pensamentos que nos veio em turbilhão e fomos obrigados a testemunhar, passada a euforia inicial, ouso proferir uma pergunta que teima em não calar:
Que seria do nosso débil e hesitante futebol, se, meio a essa parafernália de opiniões e de ego massageados ou melindrados, não existisse, e em boas condições de uso, o Estádio Maria Lamas Farache – O Frasqueirão?...
Aventou-se em demasia, idéias, as mais estapafúrdias como: o nosso principal confrade, o América, construir, num galope contra o tempo, o seu próprio Estádio (Nada contra, a não ser a inconveniência do momento); adequar com sensível e operosa reforma o Estádio do Potiguar de Parnamirim( o Ten. Luiz Gonzaga) e, ou o America ceder, parte do seu terreno do Centro de treinamento, para o Prefeitura de Parnamirim construir um Estádio com a capacidade para vinte mil pessoas. Lembrou-se também que a prefeitura de Macaíba,outra cidade da Grande Natal, concluiria a tempo o seu Estádio já em processo de construção; outra idéia, logo descartada, foi utilizar um Estádio na cidade de São Gonçalo(o Luiz Rios Bacurau), mas este localiza-se em uma fazenda, distando alguns quilômetros do centro da referida cidade.
Lembrou-se inclusive dos velhos e obsoletos Estádios: o Senador João Câmara (nas Rocas) e o Gov. Juvenal Lamartine (no bairro do Tirol). Nenhuma destas, supracitadas hipóteses, resistiria a uma análise isenta. Nenhuma! Algumas, pelo o incômodo de localizarem-se em outro município, e, em alguns casos, cuidar de empregar dinheiro público em uma propriedade privada. Outras, por deficiências operacionais, devido às péssimas localizações na realidade dos tempos atuais. E por aí vão, e foram, às luminosas idéias se desmiligüindo ante a cruel veracidade dos fatos.
O Estádio João Machado encerra suas atividades ao final deste ano; data marcada para o início de sua derrocada. Não havendo tempo e nem recursos financeiros para nenhuma destas pseudo-soluções, voltou-se a analisar, o que, na cabeça de muitos indivíduos radicais, seria uma conduta impensável: Usar, neste período de construção da nova praça esportiva, o Estádio do seu adversário – O Estádio Frasqueirão. Existe algum mal nisto? Observa-se algum demérito nesta atitude? Algum clube vai sentir-se diminuído por mandar seus jogos naquele moderno Estádio? É lógico e palpável que não!... O ABC Futebol Clube, no que tange a sua diretoria, seus conselheiros e seus torcedores, sentir-se-ão, por demais, honrados, em receber seus confrades de tantas e passadas disputas, nas suas acolhedoras instalações, pois que sabem estar a fazer História. Nada é mais gratificante! Sem falar no retorno financeiro que isso trará à equipe alvinegra; afinal de contas, as agremiações que utilizarem o Frasqueirão não o farão gratuitamente.
Sou de uma época, na qual presenciei, em algumas domingueiras promovidas pelo ABC, na sua antiga Sede Social da Rua Afonso Pena, que fazia esquina com a Rua Potengi, no Bairro de Petrópolis, quando por lá apareciam alguns dirigentes do America, estes eram especialmente bem recebidos, e suas presenças anunciadas via serviço de som instalado para aquele evento. Nada mais natural!... Da mesma forma posso afirmar e testemunhar, a gentileza que acontecia quando o fato ocorria nas dependências do América. Lembro bem, quando, por ocasião do casamento de Ricardo Siminéia, a recepção feita aos convivas aconteceu nas instalações do América Futebol Clube, no andar superior onde se localizava o restaurante daquela agremiação. Natal, naquela época, não possuía locais condignos para receber um razoável número de convidados. O America era o local preferido àqueles dias. Pois bem! José Newton Siminéia, seu pai, foi por longos anos Tesoureiro do ABC F. C., sendo um dos seus mais ferrenhos torcedores, em décadas passadas. Quando este se dirigiu à tesouraria do América, para quitar o compromisso do aluguel do espaço usado na recepção do casamento do seu filho, recebeu, pasmem os senhores, a seguinte resposta do Conselheiro Humberto Nesi: “Minéa , você acha que a gente é capaz de cobrar o aluguel do clube para o casamento do seu menino? Qué isso Minéa!, para nós é um prazer colaborar com essas bodas!..” – respondeu com sinceridade, aquele nobre alcaide do America Futebol Clube.
Estes são os meus depoimentos... Nunca pôde nem poderá haver o claro sem existir o escuro..., lembremo-nos disto!
Habemus Stadium! Que na realidade pertence a toda a sociedade natalense, pois foi uma obra concebida e executada por abnegados homens da terra de Poti, para nos servir, receber e abrigar a todos quantos procurarem as suas instalações, para a prática de um esporte tão querido qual o Futebol. Rivalidades haverão sempre. E é bom que continuem existindo para o bem e o viço do nosso amado esporte.

Natal-RN, 23 de junho (um friozinho chocho!...) de 2009.
Gibson Azevedo

sábado, 13 de junho de 2009

Apôis, têje prêso!

“Apôis, têje preso!”
(palavras do nefelibata que prendeu o Comendador)
Quis o destino nos seus imprevisíveis e caprichosos quereres que somente a pouquíssimo tempo eu tivesse a oportunidade de conhecer uma interessante e singular figura humana. Um sujeito folgazão, insinuante sob a égide de um bom papo, franco em demasia, distribui, nas ante-salas da boemia, locais nos quais mantém rotineira presença, o brilho inequívoco do seu caráter e a gostosa mansidão do seu temperamento. Um homem sereno... Trata-se do hoje Advogado Benevaldo Silva Lourenço (o Dr. Bené, de respeitável atuação nos meios jurídicos do nosso Estado). Apesar de ser um homem bom e sem maldades, não é de forma alguma um inocente. Mas, Já foi! Em dias idos, como todo jovem, era um imaturo e despreparado que cometeu, como todos na sua pouca idade, desatinos, destemperos, que seriam indesculpáveis em existências mais maduras. E esses frutos da imaturidade, ele os cometeu...
Seus pais, em décadas pretéritas, migraram com os filhos para o Estado de São Paulo em busca de dias melhores; por lá residiram uns bons pares de anos. Como conseqüência, alguns filhos - os mais velhos -, com eles não retornaram ao Nordeste, precisamente ao estado do Ceará.
O tempo passou e o Jovem Benevaldo já servia o Exército Brasileiro... Por este motivo era muito considerado em sua comunidade. Lembra o bem humorado Bené, que quando comparecia a um “arrasta pé” na sua cidade, não deixavam que ele pagasse despesa alguma. Tratavam-no como se fosse uma autoridade! Dias depois, comunicou ao seu velho pai que estava “dando baixa” do Exército, mas que ele não se preocupasse, pois estava “sentando praça” na policia militar. “- Na puliça, meu fio! Logo lá?” – perguntou surpreso, o velho sertanejo. “- Né milhor você ir pra São Paulo e arrumar um imprêgo, como seus irmãos, Não?” – insistiu com veemência, o experiente cidadão. Nada demoveu Bené do seu intento; ingressou, nos anos setenta, sem dar ouvidos aos conselhos do seu genitor, na gloriosa Polícia militar do Rio Grande do Norte.
O soldado raso Bené, segundo ele mesmo comenta, era enquadrado em demasia, seguindo à risca as ordens superiores; chegou ao ponto de, se encontrasse alguém fardado, sem observar nenhuma diferença na patente, bater continências até para guardas-noturnos...
Tudo parecia correr com tranqüilidade, sem maiores sobressaltos. Entretanto, certa noite, aquele solícito novato, tendo sido requisitado naquele dia a compor o pelotão da Radio Patrulha, cumpria nervosamente o seu plantão, quando o Praça do rádio anunciou: “Vamo, Vamo, vamo!... Pintou sujeira num Cabaré! Avie! Ligue a sirene e toque a viatura pra Zona!”
Quando a rural da polícia estacionou em frente à boate de propriedade de um proxeneta chamado David, na Av. Romualdo Galvão, apareceu uma récua de mulheres dizendo esbaforidas: “que se tratava de um velho que havia bebido muito, mas não queria pagar a despesa”. Ao encarar o suposto bêbado, Bené, querendo mostrar serviço, instava-o a pagar àquela conta... O indivíduo calado, muito calmo, fumava seu charuto como se nada estivesse acontecendo. Foi aí que Bené deu voz de prisão ao velho meliante e o encaminhou para o interior da surrada rural. Não antes de tomar-lhe, bruscamente, o charuto e o apagar com o coturno. “Era só o que faltava, um véio folgado desse, querer fumar, um charuto fedido desses, dentro da rural!... O senhor não tem vergonha, não? Um véio na sua idade, que podia ser meu avô..., vim pru brega, beber e beber..., e depois num querer pagar? Véi fulêro!” – falava indignado, o eficiente meganha.
Ao chegarem à Delegacia o delegado Mário Cabral, um Coronel aposentado, saudou com grande alegria àquele cidadão que ali adentrava: “Meu mestre, meu Comendador!..., a que devemos esta honrosa visita?” O homem não respondeu. Só disse: “quem sabe é esse soldado!” – apontando para Bené. “É o que, soldado! Que estória é essa?” - perguntou o surpreso Coronel. “Delegado, esse Elemento tava no beréu; bebeu, comeu e não pagou; aí..., nós truçemo ele preso.” – respondeu, gaguejando, o recente militar.
O Delegado trêmulo, pois estava mortificado de vergonha e de raiva, determinou: “vá deixá-lo no mesmo lugar onde ele estava; com as nossas desculpas.” “E a conta?” – perguntou o inocente recruta. “Diga ao David que o Comendador pode beber o que ele quiser; e pode botar na minha conta. Amanhã eu posso por lá para pagar. Vai!” – tangeu o delegado.
Ao retornarem ao Quartel de Policia, o Oficial de dia observou que o soldado Benevaldo apresentava sinais de embriaguez, tombando e com um forte hálito de bebida alcoólica. “Êi, soldado! qui parada é essa? Tá Bebo?” – inquiriu com rispidez, o zeloso Oficial. Mesmo com o detalhado relato feito por Bené, inclusive citando que ao retornarem à boate com o comendador, este, o convidou, praticamente forçando-o, a beber várias doses de conhaque de alcatrão e, portanto achava-se isento de qualquer culpa, coisa e loisa, etc., etc., etc.
“Era só e que faltava mesmo! Um mocorongo como você, que não faz nem um mês que “sentou praça”, já chegar para um seu superior, “chêi de mé” e com uma conversar fiada dessas!... Recolha-se ao alojamento, Seu porquêra! Aparece cada uma hoje em dia!...” – vociferou lívido de raiva, o exigente Oficial. O inocente Bené, que na sua estréia quis prender um Comendador, terminou sendo punido com uma semana de detimento – confinado ao alojamento dos Praças.
Para um melhor esclarecimento, o supracitado Comendador não era outro senão: o advogado, o etnólogo, o escritor, o jornalista e acadêmico Luiz da Câmara Cascudo; figura impar da nossa cidade, e, por demais, venerada no nosso País e no Mundo. Mestre Cascudo, com era mais conhecido, era um homem muito íntegro e muito ligado à família – Um homem honrado. Entretanto, como acontece com todo intelectual e boêmio, três dias a cada mês ele reservava para visitar alguns amigos, trocando com eles uns tostõezinhos de prosa; para descer aos recantos saudosistas da cidade que amava; e, por fim, para fazer umas visitinhas às primas do baixo meretrício... Assim era esse homem e assim era a sua terra...
Azar de Bené, que não o conhecia!

Natal-RN, 11/Jun./2009 - Gibson Azevedo da Costa

terça-feira, 26 de maio de 2009

Outro "barulhaço" por nada.

Outro “barulhaço” por nada


Existe uma cidade provinciana e bucólica que tem chamado a atenção das pessoas, ante aos fatos inusitados que por lá tem acontecido. Trata-se da cidade de Palmeira das Antas, que, como todas as cidades sertanejas, têm os seus costumes herdados dos priscos quartéis perdidos no tempo. Assim são os seus hábitos, também com relação aos santos da devoção da coletividade. Naquelas comunidades, é comum o arraigado apego às coisas antigas... Lá em Palmeira consideram-se, por demais, os velhos assuntos e manias. Cito o fato de: o santo Padroeiro daquela pequena urbe, ser, de fato, um santo velho – o São José. Pois, como sabemos, este, quando casou com Maria, já se tratava de um “rapaz velho”; há muito passado, os seus verdes anos. E entre essas coisas novas e antigas, existe também, no referido arruado das Antas, uma co-Padroeira; de prestígio até maior que o já citado e velho santo. Trata-se de Nossa Senhora do “Sucesso”; que reina absoluta em um santuário localizado no topo de uma elevação rochosa, mais conhecida como Monte do Galináceo, de piedosas romarias. O povo de Palmeira e adjacências é muito devoto; e como prova disto, naquele santuário do Monte do Galináceo, existe uma sala só para guardar as réplicas, em madeira ou em gesso, das Graças alcançadas. Esta dependência vive abarrotada destas relíquias... Dizem que todo tipo de deformação poderão ali ser encontradas – aleijões ,aos montes..., até um par de chifres, afirmam os mais afoitos, foi certa vez identificado meio ao monte de adereços das Graças obtidas. Coisas de romeiros!...

Pois bem! Foi nesta Terra onde a santidade, a etérea presença do Divino, se faz naturalmente sentir, que surgiu um herético comentário, no qual, algumas pessoas de destaque das redondezas manifestaram o irrevogável desejo de processar, na Justiça, a toda poderosa Nossa Senhora do Sucesso! Não bastasse o vergonhoso “arranca rabo” que ocorreu a alguns anos, na encenação da Paixão de Cristo, que acontece, todos os anos com destacado sucesso, na via sacra do Monte do Galináceo, durante a Semana Santa!... (Resumindo: um rapaz que representava o Nazareno, estava intrigado – de mal - com um outro, que fazia o papel do soldado Centurião e que o acoitava... Devido àquela querela particular e mal resolvida, os acoites foram aplicados com extremada eficiência, repetidas vezes de forma nada teatral, no lombo do inerme e acuado Jesus Cristo. Ora, aquilo não podia continuar!... Demorou mais alguns instantes..., e ao aproximarem-se de um local do caminho que se encontrava em reforma, Jesus soltou a pesada Cruz de madeira e pegou um porrete no canteiro de obras, partiu – com salvas e vivas dos fiéis - pra cima do seu desafeto, que, ladino, já corria monte-abaixo com uma folgada dianteira. Dizem que Jesus empurrou o bom Cireneu; deu um encontrão em São João; derrubou Nossa Senhora; resvalou no Seu Vigário assustando a “carolagem”, e, naquele malfadado ano, o santíssimo fato bíblico foi resolvido e encerrado na delegacia de polícia.)

Segundo relatos de Berto Paradão quanto ao supracitado processo da Santa, sabe-se que, devido à fama de milagreira, alguns candidatos a prefeito de algumas cidades próximas, como: Nova Bandeira, Frei Marinho, Baité, Pontaí, etc., e que não lograram êxitos nas suas pretensões eleitorais, sentindo-se lesados, entraram na Justiça em busca das devidas reparações; já que haviam feitos beatas promessas à N. S. do Sucesso, e esta, ao que tudo indica, não lhes deu ouvidos. Não se sabe bem o real teor das ações; entretanto, alguns populares, mais fuçadores e especialistas em “assuntos encobertos”, garantem que, tais calhamaços jurídicos, correm pela veia da “propaganda enganosa”, da “reparação por danos morais”..., e por aí vai...

O amigo Jair Diógenes, em suas sábias palavras, declarou, certa vez, que Deus quando Criou o Mundo só Colocou limites à inteligência; para a ignorância, por Descuido, presume-se, Deixou em aberto...

Natal,26/05/2009.
Gibson Azevedo da Costa


PS. – Alguns nomes, senão, os da maioria, foram alterados para evitar os naturais e costumeiros melindres.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Muitos vivas ao acaso.

Mais um causozinho para descontrair... Espero que gostem:



Estava eu, trilhando uma cansativa estrada na árdua procura da ciência, no X Congresso de Odontologia do Rio Grande do Norte, ocorrido de 23 a 26 de agosto último, quando meio à caterva da feira da indústria do citado evento e as representações das entidades da classe, um mundo de colegas a comparecerem aos melhores cursos ou específicos da suas preferências, foi-me apresentado, junto ao burburinho constante destas reuniões, um companheiro do Ceará ligado a farmacoterapêutica - vereda da ciência na qual publicou diversos e oportunos livros. A princípio não passamos de um discreto cumprimento que trouxe a tiracolo um sadio aperto de mãos. Passaram-se as horas e, neste ínterim, fortuitamente, acostumamo-nos com nossas presenças dentro de um mesmo espaço físico.
Dr. João Elias Cunha

A simpatia, sorrateira e discreta, sem avisos veio. Refiro-me ao colega Cirurgião-dentista, das terras Alencarinas, o Dr. João Elias Cunha; também carinhosamente conhecido por "Distinto".

Ele, um sertanejo simpático de aparência de um bom beato, onde a sinceridade - moeda farta, estampada em seu rosto -, disfarça em parte a renitente timidez que teima em acompanhá-lo sempre, só ausentando-se por completo quando o mesmo encontra-se ministrando uma aula ou um curso. De acordo com o testemunho de alguns colegas, João Elias, nestas ocasiões, transforma-se, como se, se servisse de um eficaz mimetismo, em um animal palrador afeito a falações demoradas e rebuscadas, alicerçadas em conhecimentos duramente adquiridos e postulados.
Pois bem, lá pras tantas, como disse, meio a bulha da comunicação dos presentes, ao ciciar das muitas conversas, João Elias apresentou-se súbito diante de mim, olhou-me sem medo dentro dos olhos e perguntou: - caro amigo, você acredita em "comida reimosa"? E complementou brincando com um gracejo próprio dos sertões Cearense: - Ande Tonha!...
Respondi de pronto que tanto acredito em comidas reimosas, como em outras crendices e pajelanças que o meio científico e douto insiste em não aceita-las como verdades. No entanto, sente-se impudicamente incapaz de provar suas assertivas, como era de se esperar que acontecesse. Há de ser talvez a nossa origem sertaneja que nos faz pensar na importância das crendices, dos costumes e dos medos imprescindíveis na sobrevivência e multiplicação populacional nestas hostis regiões de antanho, seiva de epopeicos capítulos na saga dos nossos antepassados.
Devo considerar que a pergunta do João Elias, referia-se tão somente às comidas que causam "pustemas" nas mais variadas parte do organismo humano. É de acreditar que o objetivo era este, todavia, a bem da verdade, gostaria de citar outras que causam os maiores e mais inconvenientes desconfortos e desarranjos: ramos, má triste, istalicidos, colerinas, piriris, bafios podres, bucho inchado, arrotos chocos etc.
Como me comprometi com o ilustre companheiro, entrei em contato com uns aparentados meus que possuem a fama - talvez injusta - de serem catimbozeiros e, com eles fiquei a rememorar, sem pressa, algumas situações e estados mórbidos causados por algum tipo de comida ingerida em circunstâncias pouco recomendáveis. Também, por respeito a essas verdades, devo dizer que o Ser urbano - aquele que nasceu nas cidades, na pseudo-segurança do mundo moderno -, não crê nestes conhecimentos rústicos que, queiram ou não, são o berço da mais avançada medicina moderna e autêntico esteio dos mais civilizados costumes. (Os bichos novos lá de casa - meus filhos - olham zombeteiros e incrédulos para os conhecimentos de sobrevivência dos povos antigos de "lá de nós".)
Elías, Cabra véí, promessa é divida! Estou cá a pagar as minhas. E lá se vão:
* Algumas frutas fibrosas e indigestas como: manga, jaca, etc.
* Comidas de origem também vegetal como: feijão verde, macaxeira, milho e seusderivados..., são consideradas quentes (reimosas) por alguns ciosos sertanejos.
* Todas as carnes de pássaros d’água: marreca, paturi, pato comum, garça,putrião (?). Seus ovos também.
* Dos peixes do mar, só os de couro são considerados "carregados"; já os de água doce, só lembro-me do curimatã que, mesmo sendo peixe de escama, mulheres de resguardo são proibidas de comê-los
* Cisma total deve-se ter pelos "frutos do mar": camarão, ostra, caranguejo, siri,sururu, lagosta, etc.
* Alguns pássaros avoetes como: arribaçãs, nambus, faisões, etc.
* Das aves caseiras só a galinha - limpa por mais de um mês, cevada num chiqueiro -, é que é recomendável a sua ingestão por pessoas convalescentes. (O mesmo não se pode dizer do consumo dos ovos das mesmas: ovos caipira). Já o Guiné - a galinha d'Angola ou Capote, como é mais conhecida em determinadas regiões -, por ser um animal mais rústico também é contra-indicada pra a dieta destas pessoas. Reservas reticentes feitas também ao consumo do peru.
*Algumas caças de animais rasteiros: camaleão, tejuaçu, tacaca, peba, tatu verdadeiro, paca, preá, moco, punaré, etc.
* Todos os derivados da carne de porco ou de javali: bacon, lingüiça, presunto,toucinho e defumados em geral, picados, etc.; e a própria carne de porco. (Óbices feitostambém ao consumo de uma conserva doce, saborosíssima, conhecida com o nome dechouriço, que é feita a base de sangue e banha de porco).
Para encerrar, mesmo ciente que me esqueci de citar algumas importantes comidas reimosas, lembro que o mel de abelha, de conhecidas propriedades medicinais, de benéficos e constatados efeitos cicatrizantes, quando degustado nos próprios favos do exu, ainda quentes pelos efeitos dos raios solares, transforma-se num indesejável vetor das infecções de garganta: amigdalite, faringite..., e mais uma série de "ites" que incomodam sobremaneira.

* * * *
Relatos

Estes relatos são destinados aos que, por quaisquer que forem os motivos, não acreditam que certas comidas possam trazer desconfortantes estados mórbidos aos incautos que inadvertidamente as consumirem. É verdade que nem todos os indivíduos são suscetíveis aos seus nefastos efeitos. Todavia, estes alimentos transmitem-nos por imanência algumas substâncias - protéicas, é provável -, que no contato pouco habitual ao cardápio rotineiro de parcela considerável da população de uma determinada região geográfica, promovem inegáveis transtornos à saúde. Posto que, ficam, estas pessoas, expostas aos eventos de respostas imunológicas ou reações inflamatórias a tais presumíveis, e, estranhas substâncias; mormente haver pouco hábito no seu consumo, dificultou-se as necessárias adaptações digestivas, por grande parte dos seres humanos, ao
longo dos séculos. Espero que estes casos possam elucidar alguns pequenos equívocos. Até porque, as rnais célebres elucidações a alguns famosos enigmas, deveram-se a pacientes observações aos achados estatísticos. Nada ou pouco, custa-nos observarmos mais alguns:

1º- José Estevão do Rego Neto casou-se muito jovem, ainda universitário. Ele e sua digníssima esposa - sempre enamorados -, quando solteiros partilhavam de um namoro “muito acochado". Não deu outra: sucumbiram ao apelo irresistível dos hormônios e “avançaram o sinal”. Sendo ele um jovem de bom caráter, casaram-se imediatamente, passando a morar na casa do sogro. Ficaram nesta situação, sob a tutela dos sogros, até a sua formatura. Estudávamos juntos, na mesma turma; morávamos no mesmo bairro. Certa feita, Netinho, como era mais conhecido, convidou-me a comer na sua casa um peba que seu sogro havia trazido de Pau dos Ferros e que seria torrado por sua sogra - mãos de fada, exímia cozinheira. Dito e feito. No Sábado saboreamos esse regalo dos deuses regado a cervejas e uma boa cachaça, como é bem recomendável. Devo dizer que poucas caças superam o sabor de um peba torrado na pimenta. Memorável! Sabor inesquecível...
O inesquecível e indesejável, entretanto, ocorreria com os primeiros sintomas de infecção manifestos logo na Segunda feira: Senti de inicio, moleza no corpo e enfado forte, parceiros que são dos estados febris. Seguiram-se erupções cutâneas que descambaram para furunculoses em algumas partes do corpo... Completando o quadro degenerativo, surgiu, como por força de mágica, um corrimento gonorréico, decorrente talvez, dalgurna uretrite mal curada e adquirida, certamente, em aventuras próprias dos verdes anos. A cura deu-se com o uso de antibióticos específicos e de largo espectro.
2º- O dileto amigo o Advogado Marcus Marinho, conta que certa vez teve uma reação tão forte a um peba que foi degustado, na sua granja, por ocasião de um seu aniversário, que alem de estourar uma unha de um dos pés, sentiu um inchaço geral que inchou até o seu pescoço. Na iminência de um espasmo de glote, foi obrigado a baixar hospital por vários dias. Segundo ele mesmo afirma, ficou tão assustado com o quadro que nunca mais comeu qualquer tipo de caça.
- Dizem que o peba tem estes poderes deletérios, devido alimentarem-se de matérias em decomposição existentes no subsolo. Afiançam, com segurança, alguns sertanejos, que o peba come até carne de defunto no subsolo de alguns cemitérios. Será por isto? E bem provável que sim. É factível esta suspeita .
Gibson Azevedo da Costa Natal-RN, 19/10/2007.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Elegia à Tiradentes


Faço aqui, com muito respeito, a minha sincera homenagem ao nosso maior vulto histórico, o cidadão brasileiro: o Sr. Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes (Líder da Inconfidência Mineira). Amanhã é feriado nacional em homenagem à sua memória. Dedico neste dia, um pequeno mimo, deste poeta, ao meu ilustre colega(Dentista do passado), que, com muita justiça, é venerado como: o Mártir da Independêcia do Brasil.


Elegia a Tiradentes


É um Brasileiro quem vos fala,
Meu Alferes...
Pra lembrar-vos a vida simples
Que vivestes em nossa Terra...
Inocência e pureza,
Marcaram vosso idealismo.
Indômito, impávido... (entrementes)
Não vistes as movediças que cercavam vosso caminho.
Fostes ingênuo, meu Alferes!... ...
Tem nada, não!..
Serás sempre lembrado..., venerado até,
Mesmo sendo vós, o Frágil que, a culpa, chamou a si...
Que culpa?... Enlouquecimento por patriotismo?...
Toda uma Nação, ora, vos observa,
Com carinho... Sem reservas...
Foi loucura ou heroísmo? – indago.
Sois um Herói, meu Alferes!... – Respondo.


Natal-RN, 20/Abril/2009
Gibson Azevedo - Poeta
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