segunda-feira, 30 de março de 2009

E haja paciência!







Já que estamos no finalzinho de Março e praticamente no começo do mês de Abril, lembrei-me de postar alguma coisinha que escrevi em tempos passados. Este conto reporta-se a tempos mais antigos ainda. Acho, no entanto, que vale a pena publicá-lo. Pode ser que alguma pessoa, de bom coração e espírito desarmado, tenha a paciência de lê-lo. Podem até gostar, é possível...Senão vejamos:


E haja paciência!
Somos imagens refletidas de espelhos do passado! Vivemos como nos mandaram costumes de herança; hábitos pretéritos que nos acompanham como sombras. Sombras das eras... . Apesar de fervilhar-nos n'alma um espírito empreendedor, acompanha-nos também costumes deletérios de uma preguiça ancestral. A cultura latina advinda da antiga Roma chegou até nossos dias, via povos de países ibéricos que foram antigas províncias romanas. Este tipo de cultura é, na realidade, uma mistura de comportamento das províncias gregas mediterrâneas e de outros povos também dominados por aquele grande império, como: cartagineses e mais alguns da África branca. Ali no mediterrâneo, naquele formidável, excessivo, número de ilhas, penínsulas, cabos, estreitos, istmos, e pequenos mares, reinaram; e, na barganha, persuasão, ocupação e conseqüente domínio opressor, os povos romanos fizeram sua história. Difundiram seu idioma, que foi naturalmente se dialetizando dentro das várias etnias dos povos dominados e, com estes também, mesclaram seus costumes, seus deuses míticos e seus medos. Assimilaram involuntariamente com o tempo, peculiaridades dos povos vencidos, que de Roma tornaram-se vassalos.
Passado o pesado jugo do domínio universal sobre o mundo conhecido, ante a ruína daquele fabuloso império, entramos num decadente período conhecido como Idade Média, onde o obscurantismo se fez rotina; a ignorância e o analfabetismo fizeram morada até nos lares das famílias mais destacadas. Na vacância de poder deixada pela ruína da administração e vida imperial, apareceram milhares de pequenos reinos e feudos; todos prenhes de instabilidade... Estados duma existência efêmera. Grassaram por essa época às guerras intestinas, de resultados danosos, que debilitavam cada vez mais esses povos. A igreja católica, rnadraça e oportunista, apoderou-se indevidamente das fontes do saber, não deixando às pessoas que sobreviveram a este cataclismo político, um único pergaminho, por menor que fosse. Sabiam da importância do conhecimento, para aquele que o detém, no domínio de outros povos. Se quisermos escravizar as pessoas que nos cercam, mantenhamo-las em estado de total ignorância. Esta é uma regra básica, que a Santa Madre Igreja cumpriu, cinicamente, naqueles sombrios séculos de escuridão. Entretanto, os povos da Península Ibérica libertaram-se sorrateiramente daquele "sacro monopólio do saber", e despertaram baseados nos antigos conhecimentos gregos e romanos, para as grandes descobertas - voltados que estavam às novas tecnologias. A invenção da imprensa, da bússola, da caravela e outras, foram motivo suficiente para povos como os Portugueses e Espanhóis, aventurarem-se por "mares nunca dantes navegados". Estes povos tinham suas praias ocidentais, voltadas paras as vagas enormes do verdadeiro mar - o Oceano Atlântico. Era praticamente impossível resistir a este apelo. Vieram, pois, ao Continente Americano; batizado por Américo Vespúcio de: Novus Mundus. Trouxeram na bagagem, suas culturas além do seu domínio. Misturaram-se com os povos nativos, transmitindo seus costumes, alguns herdados das culturas mais antigas de que se têm notícias. Eram latinos..., e como latinos, latinizaram os povos das terras conquistadas Eram gente de sangue quente; por vezes estouvados, de excelente apetite sexual. Daí, a facilidade de miscigenação com os povos dominados. Dos muitos costumes que nos deixaram, existe um, estranho a outros povos, que permanece intocado até hoje. Trata-se da indispensável “siesta”; ou seja, “madorna”, como por cá é mais conhecida.

* * *
Partindo destas reflexões, remexendo com as lembranças, deparamo-nos com a figura de um pequeno comerciante da Vila Conceição, que também se chamou de Conceição dos Azevedo; na citada época, já se chamava de Jardim do Seridó.
Bêbêdo, assim era conhecido aquele autêntico representante da família dos antigos fundadores do lugar, de cor branca, era um homenzarrão sério, corpulento, vasto bigode, um vozeirão enorme... Bêbêdo destacava-se, por ser um homem muito trabalhador, sendo relojoeiro e dono de um armarinho; atividades comerciais que ele exercia no mesmo local de trabalho. Homem honrado, virtuoso; tendo como fruto da sua labuta diária, educado três filhos e parentes agregados. De bom coração, tinha, no entanto, um temperamento instável; era daqueles, que são taxados desde cedo, como sendo de “pavio curto”. Na lida de comerciante, procurava disfarçar essa faceta esquentada da sua personalidade. Todavia, aquele vulcão em constante atividade, mesmo em estado de latência, precisava somente, de um pequeno empurrãozinho para entrar em erupção.
Os habitantes daquela pequena urbe, ainda hoje, vivem a observarem-se mutuamente, com contumácia, julgando e simultaneamente punindo com comentários maldosos, de forma precipitada; ralhando com o comportamento dos semelhantes, sem, no entanto, observarem seus próprios defeitos. Imaginemos como era, no passado, no final da década de cinqüenta...!
Aconteceu um fato interessante, apesar de bizarro. Naquela cidade nada se movimentava no pino do meio dia. Tinha-se a impressão, de que haviam curarizado aquele aglomerado de casas; dado ao silêncio mortiço que ocorria após o almoço, hora da siesta. Naquela rua central, frente ao armarinho de Bêbêdo, ouvia-se casualmente o som característico do choque de bolas de sinuca ou bilhar, numa conhecida Casa de jogo, sem que isto interrompesse o cortante silêncio. Nem o assobio das virações, constantes naquelas plagas, feria aquele pesado silêncio.
Bêbêdo tinha o costume de almoçar e imediatamente voltar para o armarinho, onde um par de armadores, estrategicamente chumbados na parede, recebia uma cheirosa e bem cuidada halmaca - rede de dormir -, na qual descansava por uma hora ou mais... Deixava, todavia, aberta a meia porta da frente, para que fregueses numa emergência o chamassem para despachar alguma mercadoria. Isto era de conhecimento de muitos dos seus concidadãos.
Certo dia, Newton Amorim, um dos Tabeliães daquele município, sendo um sujeito espirituoso e apreciador incorrigível duma troça, juntou uma rnatula de moleques vadios, dos quais, comprou o compromisso de interromper de forma intermitente, a sonora pestana de Bêbêdo. Sonora porque, seu ronco ouvia-se na outra calçada, na porta da Casa de jogo. Naquele dia, depois de se certificarem que ele já havia adormecido, chega o primeiro menino:
- Sô Bêbêdo! - gritou o moleque batendo palmas.
- hanggram! Diga! - respondeu o semi-desperto, temperando à garganta.
- Eu quero comprar uma pedra de isqueiro! - respondeu o moleque, com acara mais inocente do mundo
O comerciante levantou-se sonolento, cambaleante, e despachou o pedido do menino.
Depois de alguns minutos e de terem a garantia de que ele já dormia profundamente, chegou o segundo peralta:
- Ô Bêbêdo!!! - gritou alto, no susto, sem bater palmas.
- O qui é que você quer? – perguntou, já desperto e meio afobado.
- Papai mandou eu vim comprar uma pedinha de isqueiro! - rebateu o moleque,que estava muito bem ensaiado.
Desta feita, ele despachou o pedido já praguejando muito; e só voltou a deitar-se depois de alguns minutos de carência. Quando julgou a coisa calma, deitou-se novamente.
Quando chegou o terceiro capeta, Bêbêdo já dormia de boca aberta, o que promovia roncos altíssimos:
- Bêbêdo! Você tem peda de isqueiro? - perguntou um molecote meio magro, trepado na meia porta, com o corpo parcialmente dentro do armarinho.
- Tem não! Respondeu prontamente o decidido comerciante, dirigindo-se apressadamente em direção às prateleiras, retirando bruscamente duas caixas de pedras para isqueiros, e, chegando à porta, jogou-as ao meio da rua e bradou.
- Vão comprar pedra de isqueiro na casa da "puta qui o pariu!!!" Bando de cabras safados!!! Era só o que me faltava!!! - estava visivelmente irritado. Beirando à apoplexia.
Naquele momento, era um Vesúvio em plena erupção; soterrando Pompéia e Herculano. Se assim o compararmos, àquela antiga tragédia...

Nata!-RN, 22 de julho de 2003. Gibson Azevedo da Costa

terça-feira, 17 de março de 2009

Desequilíbrio - Mais um conto

Martírios a parte, percalços sanados, injúrias desprezadas, etc., etc., etc. ..., êita, vidinha boa de se viver!... Não se pode chegar à outra conclusão, senão esta. “Benza Deus!” O nosso País é povoado por várias espécies de seres híbridos – misturas étnicas, as mais improváveis, pra não dizer absurdas – que trazem no risível de suas existências o riso fácil de um humor acima da média. Famílias inteiras, por vezes, têm no seu cotidiano a veia da galhofa, o dom do burlesco; sem que para isto houvesse necessidade do menor ensaio. Acontece naturalmente, meio que de afogadilho, entrançado nas oitivas brejeiras, do Falar, e no Entender, desses indivíduos. É um improviso semiconsciente de respostas abruptas como um estalo - e não menos adequados. Alguns caem como luva nas mãos generosas dos amantes da picardia: o Contador de estórias, o Guarda-livros dos causos, Amanuense dos trotes e das troças.
Então, para ilustrar existências picarescas de conhecidos Bandalhos, anotemos que, certa vez, um nosso conhecido sátiro, Doutor Dedé (Dedé Fulô), ao chegar - em outra oportunidade -, ao mesmo lugarejo, distrito da cidade de Cabrobó-PE, visitando, como de costume, o mesmo “Cai-pedaço” onde se deu o entrevero com a Quenga “fraca-de-feição” conhecida pelo nome de “Ináiça”, percebeu que a situação do ridículo Estabelecimento em nada havia melhorado. Na realidade não lhe haviam cerrado às portas, diziam, por falta de tramela. A cara do dono da espelunca era um desânimo só. Como sempre, foi Dedé quem puxou conversa:
- E aí Mestre, alguma melhora neste “Mundo de meu Deus”? – referindo-se com este mimo à situação do decadente Cabaré.
- Nada! As Quenga agora é tudo im Recife ou nas Oropas, inrolano os Gringos – ponderou o experiente Cafetão.
– Hoje num tem nem Ináiça... – arrematou o velho Proxeneta. De fato, naquela secura maldita que era a falta de mulher, um “Brocoió” mais sabido arrematou Ináiça, sem levar em conta a sua evidente feiúra e “montou casa” pra ela.
Dedé Fulô, cabra véio escolado na boemia, deu uma vagarosa olhada nas ruínas daquela desventurada taverna, como se observasse aos escombros de um pós-guerra, e deu de cara com um Bebinho meio alegre, daqueles do tipo caseiro, que o encarou com os olhos baços e um inacreditável estrabismo etílico, a lhe apontar longa e bambamente com um vacilante dedo indicador, para finalmente sair-se cantarolando esta pérola:
- Aaaaáá.....raácíí... de Almeeeida, ráá!, lárárárá, rárá. Lá, rárárá, rárá rárárárá..., ..., ..., ...
- Ôxente, Mestre! Isso aqui agora virou Silvio Santos? Era só o que faltava: o baú da felicidade nesta merda de espelunca! Sai de retro, satanás! - Despachou-se Dedé, apressadamente, resmungando migalhas de palavras meio a uns impropérios e despediu-se com um “até nunca mais”!

Natal-RN, 05 de março de 2008.
Gibson Azevedo da Costa

quinta-feira, 5 de março de 2009

Apreciando poesias...


Recebi um simpático email do Psicólogo Uruguaio Gustavo Gopar, estabelecido em Montevidéu, que prazerosamente li, mesmo tratando-se de um contato puramente cibernético. Ele, por acaso, acessou o meu Blog http://www.pousodaverdade.blogspot.com/ , leu algumas matérias e, para minha satisfação, fez um comentário sobre o poema “Temporada”. Fato que agradeci prontamente; independente do comentário ser elogioso ou não. Em outro contato, agora já via email, Gustavo demonstrou interesse – psicólogo que é – no meu processo, método de criação, principalmente com relação à poesia. Declinei como resposta as seguintes palavras:
Lamento lhe informar que, no que tange ao processo criativo, no meu entender – no meu caso -, é uma coisa simples e inexplicável. Acontece nos momentos mais estranhos e inesperados. (Referindo-me a concepção do poema “Ilusórias”, que deu-se numa inexpressiva ocasião na qual levara o meu carro a um lava jato, e a demora na execução do serviço, fez-me observar melhor a cena urbana daquele local, e, sem uma explicação palpável, aflorou-me algumas reminiscências... e com elas o poema.)
Em outra ocasião, com muita simplicidade - sincero sobremaneira -, Gustavo emitiu sua opinião, sobretudo profissional sobre o meu enunciado e, entre tantas considerações, grafou:
“Cada vez que sienta um – clik – a traves de algún estímulo del mundo exterior, déjese llevar, fluir por las palabras, ( Ya que usted escribe por supuesto) bien libremente, sin censurar ninguna palabra, deje que el inconsciente hable, escriba por sí mismo y entonces todo deviene magia y sorpresa y su poema será hermoso original y único.”
Cuidados que refería-se também ao meu poema “Ilusórias”, motivo pelo qual, reiterando os meus profusos agradecimentos pelo seu comentário, publico-o na íntegra no meu Blog:

Ilusórias

As ruas da minha infância
Não tinham árvores podadas...
Um arvoredo nativo,
De boa altura e imensas copas.
Tinham a sua utilidade:
No lazer da criançada;
Refrigério de pouso rápido
No intervalo das longas caminhadas...,
Aliviando rigores inclementes
Duma canícula abrasadora;
Abrigo aos namoros diurnos,
Num debulhar de feijões.
Enchiam de verde meus olhos...
Na poeira dos verões...
No lamaçal dos invernos:
Meu Parque de Diversões!
Nas brincadeiras inocentes,
Daqueles “Tiquinhos de gente”.
Relembro com emoção...,
A minha infância na rua.
Não vejo, todavia..., onde... Quando?... Que rua?

Natal-RN, 19/Dez./2006.
Gibson Azevedo da Costa – poeta

PS. – Gustavo me confidenciou, gentilmente, que o idioma português é muito doce; e destacou as palavras saudade e lembrança para exemplificar.
Caro amigo, talvez essas sejam as mais lindas pérolas da “Última flor do Lácio”!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Uma fesceninazinha - porém interessante.

Há poucos dias recebi de um dileto amigo via email, uns versos populares(sextilhas) de um poeta que subscreve-se com Manezin de Princeza, nos quais ele trata de um novo projeto do Governo Federal: o "Bolsa vaselina". Esse projeto, visa proteger o "fim do espinhaço", de tantos quanto forem os adepto à prática do coito anal. É para proteger a integridade de uma determinada minoria (nada mais justo) - é o que dizem. Acho que esse meu amigo, sabendo de minha veia poética, nada fez, senão me provocar e deleitar-se com a minha opinião. Então, assim como Manezim de Princeza, também dei o meu parecer sobre o estranho e inusitado assunto. Aí vai ele:
* * *
Era só o que faltava:
Uma Bolsa de Pomada...
Pra proteger o Boscoro,
Que a decisão foi tomada:
De vaselinar o Boga
De toda a baitolada.
* * *
O dinheiro dos impostos,
Duramente arrecadado,
Tá servindo pra folia
Dum bando degenerado...
Protegendo o Fiofó
De tudo quanto é Viado.
* * *
Isto altera o resultado
De um exame consagrado...:
O da (goma), por exemplo,
Que confere o Pregueado
De tudo quanto é Baitola...
- Delata os efeminados.
* * *
Êita, país arretado!
De uma Gerência Casta...,
Naquilo de perder pregas:
Resolveram dar um basta.
Vai fazer a alegria,
De tudo qué Pederasta!
* * *
Agora existe uma Bolsa,
Que ampara o Mal encarado...
Já que Foba no Brasil,
Deve ser bem apertado,
E, mercê de tal ajuda,
Se quer? Pode dar rasgado!
* * *
Vaselina ser doada
Pra homem desmunhecado,
Através de Ministério,
É um ofício muito errado...
Quem quiser que pague a conta,
Por um Cu lubrificado!!
* * *
Natal-RN, 26 de Janeiro de 2009(Gibson Azevedo - poeta).
( Favor fazer comentários)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Lembranças de Juju II

Aproveito a oportunidade de estarmos próximo ao período de carnaval, quando, involutariamente, vamos pouco a pouco nos animando, para dividir com vocês uma visão nostálgica dos carnavais de alguns anos passados, transcrevendo parte de um texto de minha lavra, que escrevi em outra ocasião. Vamos lá!, sejam tolerantes:

Lembranças de Jujú II
Na carreirinha dos pensamentos, topamos involuntariamente, aos encontrões, com imagens já esmaecidas pelo transcorrer dos anos; e cenas vividas nas curvas do tempo, tomam forma e surgem de lugares obscuros, onde devagarzinho se meterem, como que por encanto. Lá, escondidinhas em recôncavos, encontram-se, mantendo-se em estado de latência, como se estivessem verdadeiramente esquecidas. Até que, a espanar a poeira dos movimentos atmosféricos, nas calmarias e nos temporais, ou mesmo camadas de poeiras cósmicas, estas imagens apagadas ganham vida readquirindo cores vivas, revitalizando antigos movimentos. Quando isto acontece com uma única pessoa, chama-se de: memória; quando acontece com um grupo de pessoas, diz-se tratar de: uma consciência ou memória coletiva. Assim sendo, coisas e fatos que julgávamos mortos, readquirem vida com relativa facilidade, motivada muitas vezes por situações que acreditávamos fúteis; no entanto fortes o suficiente, para servirem de catalisador nestas fantásticas reações de ativação da memória. Dito isto, mais uma vez, surpresos sobremaneira, lernbramo-nos, de forma descompromissada, de criaturas enigmáticas que atendiam pelo nome de Jujú.
Abre-se aqui um parêntese: (Transcorria, naquela época, nos grandes redutos habitacionais do nosso País e nos quatro cantos do mundo, sinais visíveis de mudanças. Algumas rompiam em definitivo com os usos e costumes, valores culturais - alguns , eram no entanto, remanescentes da idade média - adotados e cultuados até os anos sessenta do século passado. Aquela década serviu de divisor de águas, onde e quando rompeu-se compromissos, sufocaram, sem maiores cerimônias, aspirações de uma juventude ainda inocente; meteram goela abaixo, contra a vontade dos jovens, uma guerra longa e covarde contra um País asiático, paupérrimo e distante. Por conta daquela inexplicável pirotecnia bélica, surgiram, naqueles anos, os movimentos pacifistas, as sociedades alternativas e, à reboque, arroubos inacreditáveis de uns poucos praticantes da "contra cultura". No nosso País essas mudanças foram respostas a este estado de coisas, e denuncias emblemáticas contra a bazófia de alguns brasileiros que engendraram ou apoiaram um desenxabido “Golpe de Estado” , jogando por terra, embora que temporariamente, o nosso precário Estado de Direito. Na nossa cidade, arruado teimosamente encravado no semi árido dos sertões Nordestino, algumas destas novidades apesar de chegarem até nós com sua força bastante arrefecida, fizeram, entretanto, alguns importantes e irreversíveis estragos. É bom e necessário, no entanto, que se diga, que mesmo no meio daquela efervescência sócio cultural existente naqueles dias, vivíamos nos nossos lares a vidinha simples de sempre, que pouco diferia do dia a dia dos habitantes das pequenas aldeias; sem contato com drogas e as discussões políticas nunca ultrapassaram os limites dos palavrórios.
Assim vivíamos naqueles anos, com restos de tradições, algumas herdadas, quase na sua totalidade, dos nossos ancestrais Ibéricos.
Depois destas visões rapidamente intercaladas, de momentos, hoje fugazes, dos anos sessenta, fecha-se o parêntese ).
Jujú traz-nos, inapelavelmente, o registro de um cidadão que atendia por este nome; sendo no palmilhar do seu tempo, participante ativo dos movimentos e tradições populares da cidade de Caicó, destacado centro urbano dos sertões Nordestino. Era um sujeito de aspecto Catalão, moreno de basta cabeleira, cabelos negros e ondulados; sobrancelhas grossas guarneciam olhos escuros e miúdos, repuxados e levemente vesgos. Usava óculos com lentes grossas. As maçãs do rosto eram salientes, que junto a um bigode aparado, em fino, por cima de uma boca grande, davam forma a profundos sulcos naso-labiais. Tal face se completava com: alguma falha dentaria e, um rnento encorpado junto à urna reforçada mandíbula. Tinha uma estatura mediana e um tronco relativamente fornido.
Assim sendo, como uma fênix retorna à vida, volta-nos à lembrança o seu aspecto fisionômico. Consta-nos que, este popular ganhava a vida com uma marcenaria rudimentar e amadora; como também amador era o seu segundo ofício: tocar trombone; se é que assim podíamos norninar àquela bem intencionada algazarra sonora. O seu instrumento musical era um artefato cansado pelo excessivo uso e pelo tempo; em quase tudo parecia com um doente terminal; era muito oxidado e, aqui e acolá havia um remendo de esparadrapo. Daí, em parte, o motivo da sua pouca sonoridade; na verdade já devia estar inativo há algum tempo, assim preservando a boa figura de um dos "reis dos metais". Ficando na tutela de Jujú trabalharia até desintegrar-se; não tinha outro jeito. Jujú adorava tocar trombone..., não tinha, entretanto, o gabarito - talvez por não conhecer teoria musical - de formar na Furiosa - alcunha carinhosa da Banda de Música Recreio Caicoense. Suas atividades resumiam-se a animar periféricas gafieiras, alguns comícios de candidatos pobres, temporadas em pequenos circos e, verdadeiras maratonas no período do carnaval. O reinado de momo era um período de “vacas gordas” para músicos de pouco talento, como aquele humilde - notadamente bastardo - filho da pauta.
Jujú e seus pares, em companhia de animada trupe de Papangus, abriam o carnaval de rua acordando a cidade na madrugada do Domingo momêsco, ao som de uma meia dúzia de antiqüíssimas e consagradas marchinhas, num animado Zé Pereira. Eram, naqueles momentos, os arautos da alegria...! E aí vinham com: "mamãe eu quero"; "sapo não lava o pé"; "garota bossa nova"; "ô jardineira"; "doido também apanha"; "touradas em Madri"; "vassourinhas", etc., etc., etc. Nas tardes daqueles dias, aquele alegre senhor participava da charanga que puxava alguns blocos de sujo, como: o Ala Ursa, organizado pelo popular Genival Maleiro, que era carinhosamente chamado de: Bloco do Lixo! Terminava, é preciso dizer, naqueles dias de entrudo, por animar às noitadas de alguma boate da zona do baixo meretrício, alegrando, certamente, aos freqüentadores contumazes daqueles antros.
Bons tempos, aqueles...; hoje, infelizmente, apenas fugazes lembranças...!
Natal-RN 22 de Fevereiro de 2002
Gibson Azevedo da Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mais um causo

Mais um causo...

Este é parte de um texto de minha autoria concebido já há alguns anos. Torna-se oportuno apesar disto, pois torno-o público justamente nas festas da virada do ano; quando em minha terra comemora-se a festa de Nossa Senhora do Rosário – tradicional e antiga. Peço antecipadas desculpas, pois o mesmo é de conteúdo picaresco e nem sempre agrada às pessoas refinadas. São, todavia reminiscências telúricas, de uma época que se esmaeceu no tempo. Um pouco bucólica, como eram os vilarejos antigos. * * *

...Outras formas de jujus costumávamos ver, com freqüência, nos rudimentares "parques de diversões" que apareciam nas festas de padroeiros daquelas paupérrimas urbes. Existiam dois: um, muito pequeno, no qual giravam simetricamente uns quatro pares de cadeirinhas, sendo mais apropriados para crianças da primeira infância; o outro, o ancestral dos carrosséis, não tinha a graça, a luz, nem os movimentos, das máquinas modernas, dos atuais brinquedos giratórios. No entanto, este último era muito utilizado por "adultos feitos" e por moleques já "taludos". Todas essas máquinas carregavam no seu cerne os mesmos princípios básicos do arcaico galamate. Ou seja: faziam uso da força centrífuga ao girar em volta do seu próprio eixo! Outra semelhança, é que todos giravam movidos à tração animal: através da força do homem. Eram empurrados por humanos...
Os carrosséis antigos já não faziam barulho ao girar, pois rodavam suavemente apoiados em rolamentos bem lubrificados com graxa de petróleo, o que tornava esse movimento mais rápido e silencioso. Todavia, por serem movidos à tração humana - como já foi dito -, não possuíam engrenagens que movimentassem seus cavalinhos, pois se isto ocorresse ficariam pesados em demasia, para que, uma ou duas duplas de populares parrudos, pudessem girá-los. Separando uma tropa de cavalinho, da outra -- pois geralmente havia duas -, existiam bem afixado à madeira do piso, dois bancos para o desfrute dos casais, que por escolha ou receio, ou mesmo limitações do antigo vestuário, não optavam por montar nos referidos cavalos. Entretanto, num desses bancos, ficavam uns músicos mambembes, com um fole de oito baixos, um zabumba e um pandeiro, que faziam a alegria musical daquela engenhoca. Quando eles tocavam no momento que o carrossel girava, davam uma sonoridade singular, aos observadores estáticos, daquele primitivo brinquedo: à medida que o sanfoneiro se afastava ao passar, a intensidade sonora diminuía; e ao passo que eles se aproximavam, aquela fanfarra parecia ser mais aguda. E assim ficava... , naquele teimoso sobe e desce musical, que dava a tônica na animação daquelas datas festivas - alegria esporádica dos viventes simples daqueles arruados de antanho. Iluminação? , só com os fedidos candeeiros a querosene que pouco ou nada iluminavam, mas produziam umas sombras bamboleantes, de aspecto fantasmagórico, inesquecíveis!
Na noite de natal ou na virada do ano, ainda é possível, com um esforço quase mediúnico da memória, - na sensação de frenético burburinho, que ao sabor dos doces seco e dos ananás, e dos cheiros dos abacaxis e dos seus aluás, das aguardentes, e da pólvora queimada dos rojões espocados -, lembrar de dias que já foram bem presentes, em alguma época da odisséia humana. * * *

Numa destas noites, Joaquim, filho do velho Hernitério, do sítio Buriti no município de Jardim do Seridó-RN, veio à rua pras festas do final do ano; que prometiam ser de muita animação naquele bom ano de inverno. Tinham colhido uma boa safra e, o algodão mantinha-se em bom preço. Havia também, uma ingênua expectativa de um novo inverno regular, seqüenciando o bom período que se encerrava. Joaquim de Hemitério, como era conhecido, era um matuto arteiro e ardiloso, cheio de cavilação; pagava para ver um alvoroço, procurando, no final, dar a impressão que também era uma das vítimas ou, no mínimo, isento de culpas. Dentre as suas muitas habilidades, existia uma que consistia num domínio mental que ele tinha sobre o peristaltismo do seu estômago, podendo esvaziá-lo quando bem entendesse.
Pois bem, noite de festa, comemoração pela Cristandade do aniversário do nascimento de Jesus Cristo; Igreja aberta e a tradicional "Lapinha" muito visitada desde a boquinha da noite; foguetórios de hora em hora; preparações para a exibição do ensaiado Pastoril; muita gente na rua com roupa nova e sapatos em folha, rnoendo-lhes os pés, já maltratados com os inúmeros calos.
Joaquim saíra de casa muito cedo naquele dia. Era à tardinha... Caminhou até a igreja, fez, como era de costume, suas orações, e depois seguiu para observar e admirar as atrações, ditas, profanas. Passou por alguns bazares, deu uma parada no leilão, conversou com uns conhecidos e tentou namorar, sem sucesso, alguma moça junto ao parque de diversões. Depois de algumas idas e vindas pelos vários segmentos, daquela pouco costumeira agitação urbana, sentiu Joaquim, um pequeno enfado mesmo estando encostado na cerca de proteção do carrossel. Era normal que, àquela hora, aquele local estivesse abarrotado de gente a observar o desenrolar da diversão. Ali haviam pessoas vestidas com chitão de cores vivas - estampados - e paletós de linho diagonal, nos quais exageram no uso da "água de cheiro" ("cheiravam", em demasia). Farto, também, nestas ocasiões, era o emprego das brilhantinas...
De repente, como que movido pelo maldito, Joaquim lembrou-se que ficara em sua casa, na chapa do fogão, um alguidar de barro contendo uns dois litros e meio de leite gordo. Partiu dali apressadamente em direção à sua residência, e lá chegando foi direto à cozinha, onde encheu-se de leite até onde o estômago coube. Nem arrotou! Voltou imediatamente para o carrossel, onde comprou um bilhete que dava o direito à uma corridinha naquele brinquedo. Joaquim escolheu ficar sentado na extremidade do banco que corria por fora, e conseqüentemente, mais próximo à cerca de proteção onde ficavam, acotovelando-se, os curiosos. O carrossel começou a mover-se empurrado por Chico Catarina e Pedro Luminata, encarregados da tração daquela geringonça; a animação musical a cargo de Balôto, Sotinha e Nego Alto, com o repertório impagável do velho Severino Januário - das bandas de Exú -, e alguma coisa de Abdias, menino bom dos oito baixos - das terras da Borborema. A coisa ia caminhando muito bem. Coisa inocente... , até quando, Joaquim começou a representar a sua farsa:
À medida que o carrossel ia girando, aquele sujeito, com os olhos propositadamente estrábicos fruto de uma súbita vesguice, foi inclinando a cabeça para fora do círculo, ficando mais próximo do público. E assim, eis que de repente, escolhendo o local de maior aglomeração de observadores, despejou o conteúdo azedo e fermentado do seu estômago, maculando, com aquela mistura malcheirosa e nauseabunda, roupas e cabelos caprichosamente preparados para aquela bendita noite.
Quando finalmente parou o carrossel, na saída, juntou uma turba querendo moê-lo a pancadas, sendo, a custo, contidos; principalmente, no momento no qual o descarado Joaquim, com a cara mais ingênua do mundo, limpando a boca com um lenço, disse:
- Ah meu amigo! Eu num tive curpa..., eu injuêi!...
Natal-RN, 03/dez./2002.
Gibson Azevedo da Costa

sábado, 20 de dezembro de 2008

Perplexidade


Estou perplexo! O que estará ocorrendo com o nosso Correio? Fica esta pergunta no ar... Não encontrando resposta, lembro-me de uma época quando este serviço essencial tinha lá os seus atrativos e confiabilidade. Está tudo muito mudado neste mundo de meu Deus... O nosso serviço postal, desde priscas eras, sempre foi tido como jóia rara em meio a um mar de incompetência dos demais serviços básicos oferecidos à nossa população. Tenho motivos para desconfiar que a busca da perfeição não seja mais regra, e sim a exceção, no labor dos dias atuais naquela tão importante instituição. * * *
Na década de sessenta, no começinho, costumava observar meu avô paterno exercendo um dos seus costumes de homem feito, que depois, passado alguns anos, eu mesmo o adotaria no meu rol de manias. Ele tinha o costume de, todos os anos na segunda metade do mês novembro, sentar-se à mesa da sala com uma quantidade enorme de cartões de Boas Festas e, pacientemente, endereçava-os às pessoas da sua estima, do seu bem querer. Curioso, eu perguntava: Vovô! Pra quem o Sr. envia todos esses cartões? Pras pessoas que eu conheço e que estimo – dizia ele. Mas, são tantos assim? - Insistia na pergunta. São; e infelizmente não tenho condições de postar cartões para mais algumas criaturas quais devo atenção. Estes aqui, por exemplo, vão para a cidade de Américo Brasiliense em São Paulo, onde morei, ainda jovem, com minha família. Isso foi nos anos 30; Américo Brasiliense pertencia à cidade de Araraquara. Lá, deixei muitos amigos. Inclusive, o atual Prefeito é meu compadre e amigo. Alguns dos seus tios nasceram lá – comentava com orgulho, aquele homem simples que havia participado da revolução constitucionalista naqueles dias idos. Herdei sem formal de partilha, involuntariamente, este hábito salutar..., e com rigor, ao aproximarem-se os dias das festas natalinas, cá estou, cumprindo o mesmo ritual. Dá-me prazer, sinto orgulho, lembro-me dele e tenho saudades. Fazer o que? É a vida se modificando na sua substituição natural. * * *
Como disse, herdei este hábito; e todos os anos ao aproximarem-se as festas natalinas, de posse de um calhamaço de cartões e envelopes, envio cerca de 70 mensagens às pessoas mais chegadas, com as quais tenho a honra de privar da amizade. Este ano aconteceu uma coisa inusitada: Postei todos os cartões e fiquei aguardando respostas. Qual não foi a minha surpresa, quando chegou à minha residência um destes envelopes destinado a um dileto amigo de tantos anos. Voltei à agência do Correio fiz uma justa reclamação... A jovem que me atendeu, pediu-me inúmeras desculpas; alegando como motivo para o grosseiro erro, o fato de nesta época do ano, o tráfego de correspondências ser muito intenso, etc., etc. Lá se foi, novamente, o desgarrado envelope que agora iria atingir o seu objetivo. Assim esperávamos...
Passados alguns dias, ei-lo novamente na caixa postal da minha residência, tinhoso e renitente na teimosia em me auto felicitar. Voltei à mesma “baiúca” do Correio, tive um pequeno arranca-rabo com a mesma funcionária, que me garantiu que esta falha não mais aconteceria. Desta vez eu, incauto, acreditei! Julguei o caso resolvido.
Aconteceu, creiam-me os senhores, passado uma meia semana, lá se vem o birrento envelope bater descaradamente à minha porta. Resultado: meu pai sempre me diz, “que se você quiser um trabalho bem feito, faça-o você mesmo”. E foi o que eu fiz: peguei o meu carro, dirigi alguns quilômetros, e, entreguei o cartão “João teimoso”, em mãos do meu estimado amigo, que, ao saber dos meandros desta bizarra estória, não conteve uma sonora e sincera gargalhada.
Bem, ao fim desta, deduzi que o nosso Correio degenerou-se, apequenou-se, amancebou-se... Oraaa!!...

Natal-RN, 19 / Dezembro/ 2008.
Gibson Azevedo da Costa
PS. : E não é, que não foi só esse caso?... Hoje, dia 02 de janeiro de2009, estando eu no surpermercado, dou de cara com um primo e amigo das antigas; e na certeza dele haver mudado de enderêço, justifiquei-me: primo, postei um cartãozinho para você e sua família, e o mesmo voltou com o carimbo de enderêço desconhecido..., voçês mudaram de residência? Pasmem os senhores: faz mais de dez anos que ele mora no mesmo apartamento. Assegurou-me, com firmeza, o primo "velho de guerra". Venho postando, costumeiramente, correspondências à sua morada há vários anos. Com isto, reforça-se a minha disconfiança: Os Correios e telégrafos adqueriram péssimos cacoetes e abarrotaram-se com vícios lupanares... Amancebaram-se!...
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