
Está aproximando-se o período no qual o sertanejo cultua e comemora com sincera alegria a festa da Nossa Senhora Santana. Um ato de fé, impar, das populações deste Nordeste rural. Sou urbanizado há quarenta e tantos anos, é fato. Assim mesmo, bate-me uma pouco dissimulada saudade de dias antigos, daqueles festejos vividos numa Caicó bem mais provinciana que nos dias atuais. Tudo que diz respeito a Caicó é do meu interesse. Querem ver? Sigam-me:
Está todo mundo louco.
...Não é de hoje, alguns sinais de degeneração humana. Ocorre-nos lembrar, um acontecimento bizarro que testemunhamos no início da adolescência, lá pelos anos sessenta, na então provinciana cidade de Caicó-RN. Alguns rapazes, já barbados, filhos de famílias ilustres daquelas paragens, resolveram, num final de noite de domingo, sob o efeito de alguns psicotrópicos deglutidos com cachaça, desfilarem despidos pelas mau iluminadas ruas daquela cidadela. O propósito daqueles peladões andarilhos, era cortar a cidade ao meio, pela sua principal Avenida, com aquele cortejo indecente. Ao aproximarem-se do Mercado público, local melhor iluminado, onde existiam algumas barracas nas quais vendiam-se bebidas, cigarros e alguns humildes repastos, causaram surpresa aos noctívagos e bêbados contumazes, assíduos aos arredores. Alguns deles, a princípio, desconfiaram que a aguardente que os barraqueiros estavam retalhando, não era de boa procedência; e, ficaram a conferir a translucidez das mesmas contra o reflexo das mortiças luzes.
“- Ôpss! O qué qué isso malandrage? Qui canalhismo é esse?” – Gritaram alguns.
“- Êpa cabra, eu vou chamar a puliça!” - Protestaram outros, em tom de ameaça. O fato é que entraram rapidamente em contato com o quartel de polícia, pois numa praça de carros de aluguel que ficava ao lado do Mercado existia um telefone público; e sendo o citado quartel situado próximo ao local do delito, não tardou a serem detidos e recolhidos à delegacia. Dormiram no xadrez!
É comum nas regiões pré-desérticas, apesar do calor inclemente que faz durante o dia, fazer um relativo frio durante a noite, acentuando-se pela madrugada. Devido a isto, é compreensível que tais adeptos dos primórdios do nudismo sertanejo, clamassem, sem sucesso, ao Capitão Durval Siqueira, que mandasse alguns soldados às suas casas pegar, com os seus familiares, algumas roupas para protegerem-se do frio. O delegado negou, secamente:
- Não! Vocês não queriam andar nus? Agora aguentem!
No outro dia, logo cedo, os liberou. Não, sem antes os ameaçar com processos, reclusões e tudo o mais..., admoestando-os exemplarmente. Na realidade, quem mandou libertá-los foi o Juiz de Direito da Comarca de Caicó: o Dr. João Marinho. Sujeito bem-humorado e amigo das famílias dos desinibidos donzéis. Aquele Magistrado recebeu a inusitada notícia às gargalhadas; muito embora o fizesse informalmente.
Este fato ocorreu em meados do século passado, numa província que, ainda hoje, não se detecta na maioria dos mapas.
* * *
Algum tempo depois, surgiu uma música - se é que pode-se assim chamar -, que tinha a um refrão, que dizia:
“ - Ta todo mundo louco!” E uma canalha respondia, em coro:
“ - Ôôôba!”
Natal-RN, 02 de julho de 2003.
Gibson Azevedo da Costa.