terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pesquisa no "Pai-dos-burros".

É salutar termos por regra no relacionamento com nossos semelhantes, o exercício diário de um sincero companheirismo e, em alguns casos, a exposição transparente de uma espontânea amizade. É mais ou menos assim que me sinto com relação a Valdemar Sales. Ele, já tendo dobrado o "cabo da boa esperança ,há algum tempo", mantém todavia um humor à prova de idade e vai levando simpaticamente sua vida sem maiores tropeços. Vivendo e achando bom ! É isto... A facete que mais o caracteriza, bem humorado que é, é fazer uso, sempre que precisa ,de uma sátira mordaz, desaguando, à miúde, numa impressionante picardia. Para ele não existe pergunta sem resposta. Isto granjeou-lhe fama meio aos conhecidos e amigos.
Certa vez, há alguns anos, antes de aposentar-se, um colega de trabalho, bem mais jovem, chegou -se com uma pegadinha pra cima de Valdemar:
-Valdemar!, eu estou fazendo um trabalho de português lá no Colégio, no qual o professor nos pediu o significado de algumas palavras. Eu estava me saindo até bem, mas tem uma aqui que eu não consegui desenrolar de jeito nenhum ! Será que você não poderia consultar o seu Aurélio, que é mais completo do que o meu que é de bolso?
- Que palavra e essa "meu bichim"? - perguntou Valdema, como era mais conhecido.
- A palavra é: aleodagem - disse o cínico, evidenciando as sílabas.
- Ah! isto é coisa fácil! Amanhã mesmo eu lhe digo... Não se vexe, não!... - retribuiu com a mesma moeda: o cinismo.
No outro dia, chegou ele com uma estória estranha: que na forma erudita não existia significado; entretanto, no linguajar popular, era por demais conhecido o seu sentido.
- Então diga, Valdemar, o que quer dizer aleodagem! - insistiu o colega, curioso.
- Olhe isto não tem em dicionário, não! Mas o povão sabe que é uma espécie de mofo, que pela falta de uso, dá na parte de trás dos testículos de homens com a idade avançada! Sintetizou Valdemar, orgulhosamente, batendo martelo sobre o inusitado assunto.
Esse acontecido rendeu uma glosa comemorativa ao citado causo:
Mote:
Oque é aleodagem?...,
Argumentou Valdemar.

Glosa:
De conhecida "rodagem",
Viu-se meio embatucado,
Quando lhe foi perguntado:
O que é aleodagem?
Rebateu com malandragem,
Depois de muito estudar
E o "pai-dos-burros" falhar:
"Pru povo e na tradição,
Isto é mofo de cunhão!"
Argumentou Valdemar.

Natal-RN, 30/Set./ 2008
Gibson Azevedo - Poeta

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O militante Solino

Alguns natalenses, notadamente os que moram ou frequentam o centro da cidade, podem casualmente ter conhecido o militante por vocação que atende pelo nome de "Solino". Esse personagem, tornou-se conhecido desde as primeiras greves que eclodiram depois de queda do regime militar(durante o longo mandato do Presidente Sarnei). Ora! quem não lembra das persistentes, periódicas e abusivas greves dos bancários, acontecidas naqueles primeiros anos, ditos, da redemocratização do país? Ocorreram muitas, e não só as dos bancários; que antipaticamente paralisava o país, como também desencadeou uma ciranda de umas tantas outras, que vieram a reboque daquele primeiro grande movimento grevista de paralisação geral da nação. Para a partir daí, galoparem - os demais sindicatos -, irresponsavelmente, na moda das reivindicações e do protesto, contra uns resquícios de lixo autoritário que teimava em permanecer em voga. Resultado: somaram-se perdas de ambos os lados no rescaldo destes movimentos(fechamento de banco ou de agências bancárias, mecanização e automação dos serviços bancários, proibição de horas extras, etc.), só para citar alguns motivos que sobraram na diminuição dos postos de trabalho e o consequente empobrecimento da classe trabalhadora.
Naquele caldeirão de efervescência reividicatória, mesmo sem ter trabalho, ou seja sem pertencer a sindicato nenhum, como se fosse um "papagaio de pirata", esbarrávamos com a presença de Solino. Greves de motoristas - mesmo sem saber dirigir -, de garis, de professores, de profissionais de saúde, etc, lá estava Solino com sua bandeira vermelha de um Partido de "extremíssima" esquerda. Por isto mesmo, nunca teve tempo de trabalhar. Nunca teve ofício certo, sempre sobrevivendo da ajuda e cooperação dos conhecidos. Ainda hoje é assim que ele vive: bolsa enorme - de panfletangem - a tiracolo, bandeirão ao ombro e muita conversa mole. Toda eleição para a renovação da Câmara Municipal, lá estava o nome dele para ser apreciado pela população do município. Este ano, ao que parece, não conseguiu legenda para candidatar-se à uma cadeira naquele parlamento. Muito embora, antes das convenções dos Partidos, andasse garimpando votos nos principais antros da boemia da nossa cidade. E num destes périplos eleitoreiros, pousou com todos os seus apetrechos no Bar de Mário Barbosa, tradicional boteco situado no provinciano bairro Barro Vermelho. Lá chegando, descolou algumas doses de bebida, conversou, descontraiu-se; ao ponto de às tantas, bastante relaxado, soltar, sem perceber, uma furtiva "bufa" que foi motivo de ruidosa reclamação dos pinguços indignados. Eu, que me encontrava por trás do citado indivíduo, quase morro sufocado.
Bem, este episódio rendeu-me um mote que, prazerosamente, glosei:

Mote:
A bufa de Sêu Solino
Quase mata este poeta.

Glosa:
Revirou no intestino,
Sacolejou na gaiteira,
E escapou sorrateira...
A bufa de Sêu Solino,
É gás de raro refino,
Que a todo mundo afeta...
Solino com a bunda ereta,
- No garimpo da eleição -,
Queimou um "peido-alemão":
Quase mata este poeta!


Natal-RN,26/Set./2008.
Gibson Azevedo ( Poeta )

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Matéria que não saiu na coluna do Madruga

No início do mês de Março, do ano de 2005, o meu dileto amigo Evandro Fernandes, perguntou-me se eu já havia percebido que na coluna do Woden Madruga, do jornal "Tribuna do Norte" da nossa Capital, estava havendo uma exibição gratuita de algumas glosas que chegavam ao email daquele destacado Jornalista. Sou muito desligado e ainda não havia detectado aquela festança poética. A situação era a seguinte: o Dr. Paulo Bezerra, mais conhecido pelos íntimos por Paulo Balá, literato que adotou o estilo epistolar de escrever - o que faz muito bem, é bom frisar -, numa de suas muitas cartas escritas àquele jornalista, que as publica na íntegra, referia-se com tristeza ao estado de abandono ao qual estava entregue o antigo e histórico bairro da Ribeira, que, como todos sabemos, já na sua fase de decadência, no turno da noite transformava-se em ambiência de prostituição, jogatina e bebidas... O descaso dos poderes públicos e mesmo da população com aquela quadra urbana de nossa cidade, foi tanto, que a desertificação de suas artérias seria de certa forma inevitável. É o que hoje constatamos. Pois bem, a missiva de Dr. Paulo tratava deste assunto e na empolgação dos seus argumentos, esbravejou: - Findou-se a velha Ribeira... , nem "quenga" se encontra mais! Isto foi o suficiente para que alguns amigos, e, ou amantes da poesia, postassem algumas glosas no saite daquele Jornalista, que todo dia passou a publicar duas delas. Uma súbita enchente de emails atravancou aquele endereço eletrônico com glosas, algumas de péssimas qualidade. Madruga não viu outro jeito senão o de dar um basta naquela zorra. O que eu lamentei muito, pois a minha glosazinha chegou, creio eu, na fase de encerramento; e não sendo notada, não foi publicada. Triste fiquei, pois tratava-se de um mote sete silábico perfeito.
Bem, a vida segue o seu curso; mas, para desencargo de consciência, aqui vai a poesia que ficou acidentalmente encoberta:

Mote:
Findou-se a velha Ribeira...
Nem quenga se encontra mais.
Glosa:
Ta igual a "fim de feira",
Desolada e mal cuidada,
Sem extrema-unção, nem nada,
Findou-se a velha Ribeira...
Nem nos antros de "Reieira",
Bordéis de mil bacanais
E de orgias ancestrais,
Hoje, não tem movimento;
Nos "ais" do padecimento,
Nem quenga se encontra mais!


Natal-RN, 25/set./2008
Gibson Azevedo da Costa ( Poeta )

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Preces e nostalgia interrompidas - conto

Preces e nostalgia interrompidas
(Francisca Paulina de Medeiros-Dona Balé)

No desejo incontido de aproximarmo-nos das coisas e hostes Divinas, incorremos no patético erro de, com naturalidade, compararmos as nossas crianças com os anjos dos céus; julgando-as incapazes de cometerem algum tipo de perversidade, delito; de perpetrarem com consciência algum lance de maldade. Até poderíamos encarar desta maneira, se reportássemos aos primórdios da humanidade quando não havia a menor noção de ética, moral ou lei. Àquele ambiente de barbárie, se justificaria a máxima que graciosamente diz: "toda criança nasce boa; sofrendo as más transformações por culpa  do meio no qual vive e desenvolve-se". Nada é mais falho e enganoso do que esta afirmativa. Uma criança como todo animal em formação, em fase de crescimento, não tem ideia que existam normas que passam interferir à sua liberdade, ao seu arbítrio desmesurado. O momento do conhecimento de tais normas é um impacto súbito que decepciona e tolhe as ações destes pequenos seres, em pleno desenvolvimento; e que naturalmente revoltam-se ao depararem-se com as primeira reprimendas, primeiras surras ou castigos, motivados por conceitos, normas e regras preestabelecidas e necessárias à convivência do homem em sociedade. É assim nas grandes cidades e mais ainda nos pequenos lugarejos. Nestes pequenos arruados é natural que os " bichos-miúdos" cresçam libertos em contado com os encantos da natureza. Isto posto, convenhamos, afloram facilmente nestes pequenos seres a imparcialidade entre o bem e o mal, trazida talvez de outras vidas ( pré-uterinas ), como muitos acreditam. Vem daí, talvez, a desordem no caráter a na conduta destas existências em começo. Diabruras mil tornam-se rotina do dia a dia na horda destes pequenos malfeitores. Principalmente, como já foi apreciado, nas grandes cidades. Pode-se, no entanto, dizer, tratar-se de afrontas inocentes, fúria de pequena monta, próprias da imaturidade, da pouca idade. É verdade, deveras, é fato. Não muda, todavia, o resultado da observação que nos leva a acreditar que já nascemos portadores dalgumas falhas. Falhas estas, que requerem exaustivos cuidados no polimento das superfícies grosseiras das colunas de sustentação do caráter destes pequenos animais, que, com o passar do tempo, decerto, tornar-se-ão homens. A maioria, circunspecto e ordeiros. Sempre foi assim..., e assim será...

* * *

Alguns exemplos , ora raros, de mulher, encontrávamos com frequência até os primeiros quartéis do século vinte e que foram surpreendentemente rareando à medida que aproximávamos do final deste mesmo século. Eram mulheres de uma fibra duríssima, resistentes às piores intempéries, que as tornavam impávidas aos mais negros e medonhos presságios. Obedientes aos pais e posteriormente aos maridos, não raro tinham vontades próprias realçando-lhes o caráter, sem, como de costume, entrarem em conflito com seus tutores naturais. Eram mulheres obreiras, de uma praticidade que saltava aos olhos; tementes a Deus - catequizadoras -, exigentes disciplinadoras para com os filhos, sem, contudo , faltar-lhes com o salutar carinho e afago de mãe tão necessários nos primeiros anos de vida. Eram criaturas admiráveis!... Quando jovens, adornavam-nas uma invulgar beleza áspera, como as existentes nas flores dos cactos dos áridos tabuleiros ou nas flores dos pântanos dos sítios de alagadiços. Na idade madura e também na velhice, adquiriam, na condição de matronas - por vezes, de matriarcas -, a serenidade hígida das velhas árvores, sem máculas que as desabonassem no seu lenhoso tronco moral. Transmitiam-nos conselhos valiosíssimos, baseados em experiências vividas ao longo de suas honradas vidas.
Assim viviam aquelas fantásticas mulheres... Particularmente, da mesma forma viveu e vivia Dona Balé. Abraçou com resignação aos desígnios de Deus; conhecendo muito cedo as agruras da viuvez, com a morte do seu finado marido. Convites para contrair novas núpcias, decerto não lhe faltaram. Não quis! Recusou-os. Preferiu seguir sozinha... Agora, por último, com os pensamentos voltados às orações votivas aos santos preferidos e às doces reminiscências de um passado distante, existia, aquela senhora, no páramo de sua merecida vetustez, um fim de vida cheio de pequenos hábitos, com horários rígidos, apesar de excessivamente rotineiros. Dentre tantos, havia o costume de à tardinha, horário no qual fazia sombra no frontispício da sua casa e corria errática uma aragem fresca por aquelas vias, colocar uma cadeira de balanço na calçada e entre uma conversa e outra, Dona Balé desfiava pacientemente as contas de um antigo rosário. Rosário sim!..., pois terço ficou para as rezas de preguiçosos, como diziam os mais velhos - seus ancestrais. Entre os seus mimos de velha, destacava-se a atenção carinhosamente dedicada ao seu estimado gato, cevado a leite gordo, queijo e carne fresca, algumas vezes durante a semana. Aquele obeso animal atendia pelo diminutivo de "bichano",ou seja: "chano", ou mimosamente "chaninho". Nunca encarou um rato na vida. E nem era necessário, já que sua dona enojava-se com tal ideia. Em resumo, aquele pequeno felino vivia de exercitar a sua beleza e sua indisfarçável preguiça. Da cadeira de balanço de onde a distinta senhora observava a, então nostálgica, cena urbana a receber os últimos e mornos raios solares do dia que findava, podia ver perfeitamente o que se passava no adro da Igreja matriz, que ficava próxima ao Grupo escolar e a Prefeitura; todos postados em volta da singela Pracinha de saudosas retretas. Nesta direção, sem esforço, tudo podia ser notado; até com certa brevidade. O mesmo não se podia dizer com relação à rua que ficava em sentido contrário; a rua que dava acesso ao Cemitério, que só crescia a importância por ocasião dalgum cortejo fúnebre.
Estava Dona Balé absorta nas suas orações, pois já se avizinhava a hora do Ângelus, sem jamais imaginar ou supor que em outra dependência da sua casa - na cozinha - desenrolava-se uma cena com o seguinte e estranho diálogo:
- Tulinha, você trouxe o "trepa-moleque"? - perguntou um dos fedelhos, vizinho e amigo de todas as horas e aventuras do seu pequeno comparsa.
- Taqui ó! - exibindo, ao tirar do bolso, o rudimentar fogo de artifício - respondeu o pequeno fedelho , neto da citada matriarca.
- Pegue o gato, Minhadela! Se não pode chegar alguém...
- Chanin!..., pssil ...ssil, pssil..., sissil!... Chanin! Com esta pantomina pueril, aqueles pequenos duendes urbanos, surrupiaram momentaneamente o adorado felino, depositário dos mimos excessivos da Dona balé.

(É bom que se explique que um "trepa-moleque" é um tipo de fogo de artifício que consiste de: sete traque e uma bomba num só artefato; ou seja: sete tiros menores sequenciados e um espocar maior no final.)

Saíram sem serem vistos, com o bichano a tiracolo, pela rua de trás, que na verdade era um beco que dava acesso aos muros das casas que tinham suas fachadas voltadas para a rua principal. Caminharam céleres em direção ao pontilhão que dava passagem sobre o riacho que serpenteava frente ao cemitério. ( Já levavam, economicamente, um toco de cigarro aceso.) Lá chegaram e, sem demora, amarraram um barbante no rabo do animal, que vendo aquela brasa bem viva, ronronava arrepiado, soprando, "zanho", como se quisesse apagar a chama de uma vela. No momento seguinte, amarraram a outra ponta do cordel no "trepa-moleque" e, sem o menor remorso, atearam fogo ao estopim do artefato pirotécnico.

* * *

Bem, o mimado gato não era afeito a grandes emoções, vivendo uma vida sem vexames, sem surpresas. Nada, a rigor, interferira na rotina da sua vida calma. Até aquele dia...
Disparou, aos pulos - incomuns, até então - , logo que ouviu o chiado do pavio e o cheiro da pólvora queimada. O primeiro tiro ocorreu quando já alcançava à esquina e, neste momento, deu conta que arrastava o próprio inferno atrelado à sua cauda. De um só pinote atravessou a rua. Quando chegou à outra calçada, a do Grupo Escolar, avistou sua dona sentada na cadeira de balanço, do outro lado daquela via pública. Neste ínterim, aconteceu o segundo espocar, que o forçou a esvaziar, de pronto, o farto conteúdo do seus intestinos. Seguiu feito um bólido, em movimentos de ziguezague na tentativa de livrar-se dos pipocos que se seguiram, até que, na pressa de entrar em casa, não encontrando a porta livre, pois a cadeira de balanço parcialmente atravancava-lhe à passagem, por instinto, deu um pulo por cima da mesma, na qual, trêmula de espanto, de lívido aspecto, encontrava-se a indefesa Dona Balé. E assim, como se fosse obra do demônio, nos subterrâneos das coincidências, a última e maior explosão ocorreu justamente naquele fatídico instante: Buumm!
- Ai, Jisuis! - foram , segundo testemunhas confiáveis, as únicas palavras que a inocente anciã balbuciou antes do inevitável desmaio, na exaustão da suas forças.

Natal-RN,24/set./ 2008.
Gibson Azevedo da costa

PS.: é bom esclarecer que o couro dos fundilhos dos citados "anjinhos", foram, devido e severamente, lenhados. Huumm...! Nádegas doídas..., dificuldade ao sentar. Ainda bem!
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