segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Mais um causo

Mais um causo...

Este é parte de um texto de minha autoria concebido já há alguns anos. Torna-se oportuno apesar disto, pois torno-o público justamente nas festas da virada do ano; quando em minha terra comemora-se a festa de Nossa Senhora do Rosário – tradicional e antiga. Peço antecipadas desculpas, pois o mesmo é de conteúdo picaresco e nem sempre agrada às pessoas refinadas. São, todavia reminiscências telúricas, de uma época que se esmaeceu no tempo. Um pouco bucólica, como eram os vilarejos antigos. * * *

...Outras formas de jujus costumávamos ver, com freqüência, nos rudimentares "parques de diversões" que apareciam nas festas de padroeiros daquelas paupérrimas urbes. Existiam dois: um, muito pequeno, no qual giravam simetricamente uns quatro pares de cadeirinhas, sendo mais apropriados para crianças da primeira infância; o outro, o ancestral dos carrosséis, não tinha a graça, a luz, nem os movimentos, das máquinas modernas, dos atuais brinquedos giratórios. No entanto, este último era muito utilizado por "adultos feitos" e por moleques já "taludos". Todas essas máquinas carregavam no seu cerne os mesmos princípios básicos do arcaico galamate. Ou seja: faziam uso da força centrífuga ao girar em volta do seu próprio eixo! Outra semelhança, é que todos giravam movidos à tração animal: através da força do homem. Eram empurrados por humanos...
Os carrosséis antigos já não faziam barulho ao girar, pois rodavam suavemente apoiados em rolamentos bem lubrificados com graxa de petróleo, o que tornava esse movimento mais rápido e silencioso. Todavia, por serem movidos à tração humana - como já foi dito -, não possuíam engrenagens que movimentassem seus cavalinhos, pois se isto ocorresse ficariam pesados em demasia, para que, uma ou duas duplas de populares parrudos, pudessem girá-los. Separando uma tropa de cavalinho, da outra -- pois geralmente havia duas -, existiam bem afixado à madeira do piso, dois bancos para o desfrute dos casais, que por escolha ou receio, ou mesmo limitações do antigo vestuário, não optavam por montar nos referidos cavalos. Entretanto, num desses bancos, ficavam uns músicos mambembes, com um fole de oito baixos, um zabumba e um pandeiro, que faziam a alegria musical daquela engenhoca. Quando eles tocavam no momento que o carrossel girava, davam uma sonoridade singular, aos observadores estáticos, daquele primitivo brinquedo: à medida que o sanfoneiro se afastava ao passar, a intensidade sonora diminuía; e ao passo que eles se aproximavam, aquela fanfarra parecia ser mais aguda. E assim ficava... , naquele teimoso sobe e desce musical, que dava a tônica na animação daquelas datas festivas - alegria esporádica dos viventes simples daqueles arruados de antanho. Iluminação? , só com os fedidos candeeiros a querosene que pouco ou nada iluminavam, mas produziam umas sombras bamboleantes, de aspecto fantasmagórico, inesquecíveis!
Na noite de natal ou na virada do ano, ainda é possível, com um esforço quase mediúnico da memória, - na sensação de frenético burburinho, que ao sabor dos doces seco e dos ananás, e dos cheiros dos abacaxis e dos seus aluás, das aguardentes, e da pólvora queimada dos rojões espocados -, lembrar de dias que já foram bem presentes, em alguma época da odisséia humana. * * *

Numa destas noites, Joaquim, filho do velho Hernitério, do sítio Buriti no município de Jardim do Seridó-RN, veio à rua pras festas do final do ano; que prometiam ser de muita animação naquele bom ano de inverno. Tinham colhido uma boa safra e, o algodão mantinha-se em bom preço. Havia também, uma ingênua expectativa de um novo inverno regular, seqüenciando o bom período que se encerrava. Joaquim de Hemitério, como era conhecido, era um matuto arteiro e ardiloso, cheio de cavilação; pagava para ver um alvoroço, procurando, no final, dar a impressão que também era uma das vítimas ou, no mínimo, isento de culpas. Dentre as suas muitas habilidades, existia uma que consistia num domínio mental que ele tinha sobre o peristaltismo do seu estômago, podendo esvaziá-lo quando bem entendesse.
Pois bem, noite de festa, comemoração pela Cristandade do aniversário do nascimento de Jesus Cristo; Igreja aberta e a tradicional "Lapinha" muito visitada desde a boquinha da noite; foguetórios de hora em hora; preparações para a exibição do ensaiado Pastoril; muita gente na rua com roupa nova e sapatos em folha, rnoendo-lhes os pés, já maltratados com os inúmeros calos.
Joaquim saíra de casa muito cedo naquele dia. Era à tardinha... Caminhou até a igreja, fez, como era de costume, suas orações, e depois seguiu para observar e admirar as atrações, ditas, profanas. Passou por alguns bazares, deu uma parada no leilão, conversou com uns conhecidos e tentou namorar, sem sucesso, alguma moça junto ao parque de diversões. Depois de algumas idas e vindas pelos vários segmentos, daquela pouco costumeira agitação urbana, sentiu Joaquim, um pequeno enfado mesmo estando encostado na cerca de proteção do carrossel. Era normal que, àquela hora, aquele local estivesse abarrotado de gente a observar o desenrolar da diversão. Ali haviam pessoas vestidas com chitão de cores vivas - estampados - e paletós de linho diagonal, nos quais exageram no uso da "água de cheiro" ("cheiravam", em demasia). Farto, também, nestas ocasiões, era o emprego das brilhantinas...
De repente, como que movido pelo maldito, Joaquim lembrou-se que ficara em sua casa, na chapa do fogão, um alguidar de barro contendo uns dois litros e meio de leite gordo. Partiu dali apressadamente em direção à sua residência, e lá chegando foi direto à cozinha, onde encheu-se de leite até onde o estômago coube. Nem arrotou! Voltou imediatamente para o carrossel, onde comprou um bilhete que dava o direito à uma corridinha naquele brinquedo. Joaquim escolheu ficar sentado na extremidade do banco que corria por fora, e conseqüentemente, mais próximo à cerca de proteção onde ficavam, acotovelando-se, os curiosos. O carrossel começou a mover-se empurrado por Chico Catarina e Pedro Luminata, encarregados da tração daquela geringonça; a animação musical a cargo de Balôto, Sotinha e Nego Alto, com o repertório impagável do velho Severino Januário - das bandas de Exú -, e alguma coisa de Abdias, menino bom dos oito baixos - das terras da Borborema. A coisa ia caminhando muito bem. Coisa inocente... , até quando, Joaquim começou a representar a sua farsa:
À medida que o carrossel ia girando, aquele sujeito, com os olhos propositadamente estrábicos fruto de uma súbita vesguice, foi inclinando a cabeça para fora do círculo, ficando mais próximo do público. E assim, eis que de repente, escolhendo o local de maior aglomeração de observadores, despejou o conteúdo azedo e fermentado do seu estômago, maculando, com aquela mistura malcheirosa e nauseabunda, roupas e cabelos caprichosamente preparados para aquela bendita noite.
Quando finalmente parou o carrossel, na saída, juntou uma turba querendo moê-lo a pancadas, sendo, a custo, contidos; principalmente, no momento no qual o descarado Joaquim, com a cara mais ingênua do mundo, limpando a boca com um lenço, disse:
- Ah meu amigo! Eu num tive curpa..., eu injuêi!...
Natal-RN, 03/dez./2002.
Gibson Azevedo da Costa

sábado, 20 de dezembro de 2008

Perplexidade


Estou perplexo! O que estará ocorrendo com o nosso Correio? Fica esta pergunta no ar... Não encontrando resposta, lembro-me de uma época quando este serviço essencial tinha lá os seus atrativos e confiabilidade. Está tudo muito mudado neste mundo de meu Deus... O nosso serviço postal, desde priscas eras, sempre foi tido como jóia rara em meio a um mar de incompetência dos demais serviços básicos oferecidos à nossa população. Tenho motivos para desconfiar que a busca da perfeição não seja mais regra, e sim a exceção, no labor dos dias atuais naquela tão importante instituição. * * *
Na década de sessenta, no começinho, costumava observar meu avô paterno exercendo um dos seus costumes de homem feito, que depois, passado alguns anos, eu mesmo o adotaria no meu rol de manias. Ele tinha o costume de, todos os anos na segunda metade do mês novembro, sentar-se à mesa da sala com uma quantidade enorme de cartões de Boas Festas e, pacientemente, endereçava-os às pessoas da sua estima, do seu bem querer. Curioso, eu perguntava: Vovô! Pra quem o Sr. envia todos esses cartões? Pras pessoas que eu conheço e que estimo – dizia ele. Mas, são tantos assim? - Insistia na pergunta. São; e infelizmente não tenho condições de postar cartões para mais algumas criaturas quais devo atenção. Estes aqui, por exemplo, vão para a cidade de Américo Brasiliense em São Paulo, onde morei, ainda jovem, com minha família. Isso foi nos anos 30; Américo Brasiliense pertencia à cidade de Araraquara. Lá, deixei muitos amigos. Inclusive, o atual Prefeito é meu compadre e amigo. Alguns dos seus tios nasceram lá – comentava com orgulho, aquele homem simples que havia participado da revolução constitucionalista naqueles dias idos. Herdei sem formal de partilha, involuntariamente, este hábito salutar..., e com rigor, ao aproximarem-se os dias das festas natalinas, cá estou, cumprindo o mesmo ritual. Dá-me prazer, sinto orgulho, lembro-me dele e tenho saudades. Fazer o que? É a vida se modificando na sua substituição natural. * * *
Como disse, herdei este hábito; e todos os anos ao aproximarem-se as festas natalinas, de posse de um calhamaço de cartões e envelopes, envio cerca de 70 mensagens às pessoas mais chegadas, com as quais tenho a honra de privar da amizade. Este ano aconteceu uma coisa inusitada: Postei todos os cartões e fiquei aguardando respostas. Qual não foi a minha surpresa, quando chegou à minha residência um destes envelopes destinado a um dileto amigo de tantos anos. Voltei à agência do Correio fiz uma justa reclamação... A jovem que me atendeu, pediu-me inúmeras desculpas; alegando como motivo para o grosseiro erro, o fato de nesta época do ano, o tráfego de correspondências ser muito intenso, etc., etc. Lá se foi, novamente, o desgarrado envelope que agora iria atingir o seu objetivo. Assim esperávamos...
Passados alguns dias, ei-lo novamente na caixa postal da minha residência, tinhoso e renitente na teimosia em me auto felicitar. Voltei à mesma “baiúca” do Correio, tive um pequeno arranca-rabo com a mesma funcionária, que me garantiu que esta falha não mais aconteceria. Desta vez eu, incauto, acreditei! Julguei o caso resolvido.
Aconteceu, creiam-me os senhores, passado uma meia semana, lá se vem o birrento envelope bater descaradamente à minha porta. Resultado: meu pai sempre me diz, “que se você quiser um trabalho bem feito, faça-o você mesmo”. E foi o que eu fiz: peguei o meu carro, dirigi alguns quilômetros, e, entreguei o cartão “João teimoso”, em mãos do meu estimado amigo, que, ao saber dos meandros desta bizarra estória, não conteve uma sonora e sincera gargalhada.
Bem, ao fim desta, deduzi que o nosso Correio degenerou-se, apequenou-se, amancebou-se... Oraaa!!...

Natal-RN, 19 / Dezembro/ 2008.
Gibson Azevedo da Costa
PS. : E não é, que não foi só esse caso?... Hoje, dia 02 de janeiro de2009, estando eu no surpermercado, dou de cara com um primo e amigo das antigas; e na certeza dele haver mudado de enderêço, justifiquei-me: primo, postei um cartãozinho para você e sua família, e o mesmo voltou com o carimbo de enderêço desconhecido..., voçês mudaram de residência? Pasmem os senhores: faz mais de dez anos que ele mora no mesmo apartamento. Assegurou-me, com firmeza, o primo "velho de guerra". Venho postando, costumeiramente, correspondências à sua morada há vários anos. Com isto, reforça-se a minha disconfiança: Os Correios e telégrafos adqueriram péssimos cacoetes e abarrotaram-se com vícios lupanares... Amancebaram-se!...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Temporada

Temporada ( texto)

Vou deixando por aqui, um pequeno mimo poético aos leitores que nos visitam neste blog de intrínsecas raízes tropicais, e à contra gosto, por motivos outros, não tiveram a oportunidade de conhecer o morno prazer dos ventos brandos da esquina do Continente latino-americano. Esse brinde vai à forma de poesia..., fragmentos - uma instância – do verão que passou, e saudando mais uma estação ensolarada; com a sua multiplicidade de cores e cheiros fortes da festiva abundância das frutas sazonais .
A poesia, se analisarmos como um todo, não tem um viés auto-explicativo. Nem os grandes mestres, vates renomados, conseguiram tal façanha. Um sentimento exteriorizado por metáforas pode dar margem a inúmeras interpretações - algumas equivocadas, sobremaneira. Explico: se não fosse uma entrevista dada à imprensa televisiva do nosso país, pelo próprio autor, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não saberíamos o real sentido daquele lindo poema chamado: “e agora José?” Ouviríamos uma linda peça poética, sem saber, no entanto, o verdadeiro motivo da sua existência. Isto, porem, é outra história...
Encontrava-me naquele começo de tarde do dia 13 de janeiro, numa certa esquina da Rua Jaguarari, situada no Bairro Barro vermelho desta Capital, quando presenciei o caminhar alegre de duas jovens nativas. Aquelas criaturas quase impúberes, de cabelos soltos ainda úmidos de um banho recente, e exalando inequívocas fragrâncias de sabonete, tagarelavam argentinas, esvoaçantes em suas vestes finas que se destacavam ao contato das peles curtidas pelo sol da estação. Foi um instante de tirar o fôlego... Eu vi a vida em toda a sua plenitude: bastou observá-las!
Não me contive. Desculpem-me se não traduzi a contento a luz que veio à minh’alma:



Temporada

É a revoada dos verões...
Encanto dos olhos
Do bicho Homem:
Ninfas de corpos d’ouro-escuro...
Cabelos corridos..., lábios grossos.
Dão vida, no vaguear, à vestes finas
- que pouco, ou nada, cobrem.
Festa florida das estampas...
-Fragrâncias suadas de cheiros úmidos.
Na pressa dos passos de um destino
Incerto...
Correm céleres, álacres...
Peitando com tetas duras,
Ao morno sopro tropical
Da esquina do Continente;
Encanto dos olhos... Prazeres do faro...
Ah! Delícias dos sentidos!...

Natal-RN, 13/Jan./ 2008.
Gibson Azevedo da Costa (poeta)

PS: gostaria de tomar conhecimento -via comentários feitos pelos meus queridos visitantes- da opinião dos outros; pois que, se se trata do “Pouso da verdade”, não é justo que possa parecer que alguém seja o seu dono. Aguardo, pois, algumas manifestações.
G. Azevedo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Canção à Caicó

Tenho pela cidade de Caicó e por seus munícipes uma admiração especial, um carinho e respeito impar, uma invulgar reverência. Explico: Morei naquela hospitaleira urbe parte da minha infância e adolescência. Não sou natural de lá, no entanto no período que por lá residi, nunca, em situação alguma, me senti um intruso, um forasteiro. Construi, naquelas paragens, amizades que até agora perduram, apesar da batida implacável das décadas. Estudei nos seus bons colégios e sorvi-lhes os ensinamentos, carinhosamente cultivados dos seus antepassados. Serviram-me - tais ensinamentos -, de base na formação do meu caráter, que procurei transmitir aos meus descendentes, com muito orgulho. Nunca é demais dizer que o sertanejo é um indivíduo hospitaleiro. No caso do caicoense, esta qualidade exacerba-se; ao ponto de não se ter notícia de gente mais amigável, às pessoas que os visitam, ou que naquelas terras residem por algum espaço de tempo.
Tempos atrás - não muito, coisa recente -, retornei em visita àquela amada cidade ; e flagrei-me ferido por uma doída saudade, ao constatar as mudanças no cenário físico e humano que o tempo submete à existência. Inocentemente, julguei ser possível rever pessoas e fatos que ora pertencem a outras ambiências. Já se foram? indagava-me, num mutismo de tristeza... Não tive como fugir. O jeito foi documentar:

Canção à Caicó

Ferem à sensibilidade
Lembrar os fatos d'outrora...
Caminhar pela cidade
Palmilhando rua afora.
Faz aflorar a saudade,
E, a emoção não se esconde,
Ao ver um Walfredo em bronze...;
Bate uma tristeza na gente,
Saber de um Dinarte ausente...;

E cá, nesta terra de Sant'Ana,
Dias festivos..., noites ufanas...;
Se vão distantes..., bem diferente!...

Natal-RN, 22/08/2003.
Gibson azevedo - Poeta

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ode à vida

Ode à vida

Devemos viver a vida,
Na arte dos bons costumes,
Sem muita birra ou queixumes,
Na boa briga, na lida.
Existe pra ser vivida,
A saga da humanidade;
Cio à sombra da verdade,
Que, da liberdade é irmã,
Vestal de santa pagã,
Dos tempos, da eternidade!...

Natal-RN, 17/ dez./ 2005.
Gibson Azevedo ( Poeta)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Tarde de Verão

Tarde de Verão
( Varal humano )

Veste negras
Com lânguidas promessas,
Balouçam incertas...,
Nos requebros do varal humano;
Engano de olhos famintos
Tintos de luzes...
Ilusões de vida trocista.
- Um leve toque no toco do cigarro -
De vestes negras...
- Em balouços - incertas...,
Ao sabor da morna briza da tarde...


Natal, 07/01/2006.
Gibson azevedo - Poeta.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O protesto da cigana

Um sujeito espirituoso, Mané de Afro, ao chegar, certa manhã em dias idos, na farmácia do Sr. Severino Chóle no Município de Ouro Branco-RN, encontrou um movimento maior do o que o de costume, devido a presença de uma cigana que estava lendo as mãos (a sorte) de algumas pessoas presentes; e mais, fechando o corpo de algumas contra a inveja, mal olhado, quebranto, etc. Nisto, aproxima-se dele a insinuante cigana e pergunta: " o ganjão num qué saber do futuro, não? E fechar seu côipo? eu também faço! "
-Ah bom! , e a sinhora fecha côipo, é? Apôi,eu queria que a sinhora fechasse o meu... - comentou, com sarcasmo, o gaiato do Mané. Mané tinha como característica uma facilidade enorme para soltar peido. Bastava querer... A cigana carregou Mané para detrás de uma porta para melhor ludibriá-lo, e começou em bom romani com aquela algaravia medonha: o ganjão vai ser muito feliz...,vai fazer uma grande viagem...,vai aparecer um grande amor na sua vida ... E por fim, fez uns sinais místicos no corpo de Mané, pela frente e por trás.
Quando a cigana já estava com a mão estirada para receber a sua paga, Mané perguntou: - Qué dizer queu tô cum côipo fechado? É garantido?
-É garantido!... Nada, nem entra nem sai do côipo do ganjão. Foi aí que Mané soltou um sonoro e caprichado peido, fazendo o seguinte comentário: - Êpa!... Parece que num tá muito garantido, não! A sinhora tá vendo qui tem pelo menos um lugar qui ta vazano, né?
A cigana de pele encarquilhada pelos rigores do sol, demonstrando no seu ar de desleixo a experiência adquirida de mil vidas, sentiu-se ultrajada por cair no grotesco trote; tremeu de raiva, deu uma grande “popa”, e cobriu Mané de desaforo e pragas - as mais medonhas que ela pode imaginar-, e retirou-se muito ofendida do ambiente de galhofas que tornou-se, momentaneamente, a farmácia do Sr. Severino Chóle. Bem meus caros, por hoje é só. Abraços e inté mais vê!-----
Do amigo Gibson Azevedo

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Martelo marcado - destroço difícil

Foi do acaso ou por culpa da má sina,
Ou talvez os caprichos de um mau fado,
Que Giovani, foi colher o resultado,
Num porre aloprado no bar da esquina.
O tal “causo” ocorreu lá na cantina
- Num lugar de bebidas e alterações,
De muita roedeira e vis ilusões -;
No tal botequim do BarroVermelho,
“Borrachos", pinguços, que até tem "Conselho"
Com brigas, disputas e até eleições...

Cheirou, degustou, toda àquela bebida.
Que foi destilada, em algum brejo imundo,
Bebeu, emborcou, engoliu num segundo,
Sem nada comer, a cachaça servida.
Topou sem querer nos percalços da vida,
Sentiu uma vertigem quando foi mijar ...
Com a vista rodando e a barriga a roncar...,
Agachou-se no chão, despencou por inteiro...
Tirou uma madorna, dormiu no banheiro,
Roncando e babando, até se engasgar.


Na noite, já tarde, o boteco fechou,
De sono ferrado na poça de urina,
No forte fedor, que o "migué" determina,
Assustado, suado, Giovani acordou.
Revirou à lembrança, mas ela empacou:
Pois nada se via, do escuro onde estava,
- "Credo cruz!"-, do Capeta lembrava.
- "Será qu'eu morri?"-, agarrou-se a pensar...
- "Ô sina medonha, alguém me enterrar!"
-Borrado de medo, a língua enrolava...

Naquela conduta, criou um berreiro!
Abriu latomia, com muito alarido,
Zoada daquelas, jamais tinha havido,
Chorava e urrava, de lá do banheiro.
E meio ao vexame, apalpou por inteiro,
Olhou o dinheiro, se tinham levado...,
Com muita zonzeira, olhou apressado,
Com muito cuidado, um "pertence" de Ouro...
Mexeu com o dedo no anel de couro,
Pra ver se, sem ordem, o haviam usado!

Saiu do banheiro, com tudo apagado,
Tombando, sonado, topando com tudo:
Em copos, garrafas, em porta-canudo;
A cada passada, mais "terém" quebrado,
Que no inventário foi tudo anotado:
Montila, conhaque, cachaça e cinzanos.
Biscoito, banana, rapa-coco e abanos,
Iogurte, cocada, tanjal, espumante,
Sukita, grapette, fratelle e frizante,
E vários whisks, de até doze anos!!

Naquela bagunça, no caos instalado,
De tanto "me acuda!", alguém acudiu:
"É bebo?" "Não!, é a puta. que o pariu!"
-Responde, o fuleiro, já muito irritado.
“Pegando o beco”, sumiu apressado...
Em casa, proseia: coisa e loisa, dar fé;
Contando à estória pra sua mulher,
Que ouvia, de garra, com uma mão de pilão:
"Ah! Sô Jovane !!! eu num sou besta, não!"
"Cê tava, na Zona, no mêi da ralé!!!

Natal-RN, 27/Janeiro/2005
Gibson Azevedo da Costa - poeta

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Continuação forçada.


Continuação forçada a título de esclarecimento:
Devo esclarecer que, ao concluir o texto "conto / crônica" sob o título de "motivos de discórdias", mostrei uma cópia ao amigo Marivaldo Ernesto, pois havia sido ele que me contara a citada estória em todos os seus meandros, minudências e sutilezas. Notei-lhe, uma acalorada alegria ao lê-lo. Vi, de relance, um realce instantâneo das cores da sua face, pois, sendo de tez sangüínea, esse sertanejo urbanizado facilmente demonstra suas mais íntimas emoções. Na verdade, nem procurou dissimulá-los; colocou a dita cópia em baixo do braço e esquipou no meio do mundo....
Passado alguns dias recebo dele alguns telefonemas, nos quais insistia na urgência de reunirmo-nos para uma conversa e alguns esclarecimentos, com relação ao referido texto. Encontro marcado, compareci com presteza.
- Amigo, não é nada daquilo que eu havia lhe falado, e, conseqüentemente, que você escreveu! Fui ao Cuité, conversei com algumas pessoas, fiz alguns telefonemas abrangendo parte da região do Curamaíaú, e colhi uma estória um pouco diferente da que lhe relatei. - argumentou-me com segurança.
Segundo o que ele apurou, o causo não se sucedeu em mil novecentos e trinta, e sim, em mil novecentos e quatorze. O indivíduo Zé motorista, na falta de caminhão, transforma-se, num estalar de dedos, em Raimundo, um tropeiro popularmente conhecido como Viramundo. Pois foi esse Viramundo, que desencadeou toda àquela estória de "merda de cachorro", de funestas conseqüências à economia de toda região do Curumataú e circunvizinhanças. Envolveu "mundos e fundos" naquele estropício de aventura. Destrambelhou de vez os antigos alicerces da centenária economia familiar daquelas pequenas almas. Veja o que não faz a ganância! É fato: não só as pessoas simples levaram o tombo daquele trote rasteiro. Todos se envolveram! Comerciantes, Juiz de Direito, Delegado de polícia, Pároco, Médico, Farmacêutico, Parteiras, Professores, Políticos, Panificadores, Pecuaristas, Agricultores, Ferreiros, Fogueteiros, Arrieiros, Bruaqueiros, Almocreves, Prostitutas, Alfaiates, Cabreiros de jogo, Cantadores de viola, etc.; dizem que até Catimbozeiros caíram na cantilena do lucro fácil. Ah?..., Lucro fácil...; conduta até certo ponto reprovável, quando observada levando-se em conta a moral, a ética e a justiça.
Bem, o que posso dizer ao amigo Marivaldo a respeito dessas correções? Do fundo de minh´alma, cuido não haver a menor necessidade de alterar o texto anterior. Pois se, de fato, assim não ocorreu, poderia muito bem ter acontecido; no surrealismo, no ineditismo, no inusitado do pensamento que nos ocorre nas vezes primeiras. Assim sendo, nada mudarei.
Todavia, aproveitarei o ensejo para narrar um "assucedido" que veio encartado naquele calhamaço de informações; anotações cuidadosa e avidamente, colhidas por aquele grande amigo do Cuité, e que mereceram o meu apreço:
No começo do século passado, o lugarejo chamado Cuité pertencia a Comarca de Picuí; já fervilhavam, entretanto endemicamente, desejos separatistas que geraram questiúnculas memoráveis, com desdobramentos e resíduos de rixas que, algumas
poucas, perduram até hoje, passados anos sem conta da sua emancipação política. Havia e há, embora de forma dissimulada, uma animosidade pronta para eclodir ao menor estímulo. Antigamente, era pior. Ah! se era...
Naqueles tempos antigos de crudelíssimas secas, ocorreu a de quinze; dizem que maior não houve. Flagelo abominável trouxe no seu encalço, seguindo-lhe o rastro, um surto de cólera. Esses fenômenos naturais que ocorrem de forma cíclica em nossa região, eram encarados pelos Curas das freguesias de Cuité e Picuí, como sendo castigo Divino, aos homens, pelos pecados cometidos. (Artimanhas de sabidões ou caturrices de ignorantes?) Pois bem, assunto polêmico; uns contra, outros a favor... Estes citados clérigos, tiveram a insana idéia, própria de mentes doentias, na tentativa de acalmar a "ira" Divina, trocar, num malsinado escambo, Nossa Senhora das Mercês, Padroeira de Cuité, por São Sebastião ( o Soldado ), Padroeiro de Picuí. A troca ocorreria nas Onças, povoado a meio caminho; vinte e poucos quilômetros eqüidistantes de cada cidade.
Às cinco da manhã, partiu cada santo para o seu destino; as mulheres puxando pelos seus rosários, e os homens, por cada birosca que passavam, tomavam umas e outras e discutiam: uns a favor e outros contra...
Uma hora da tarde, sol a pino, muita poeira - canícula inclemente -, chegaram às Onças. Cansados, suados e famintos - estropiados. Alguns homens, visivelmente embriagados, ainda discutiam: "uns a favor, outros contra"! Os desatinados párocos, ensandecidos nas suas atitudes para efetivarem àquela troca fula, colocaram um Santo em frente ao outro, meio a uma grande discussão. Do meio da balbúrdia surgiu um beato cheio de cana, devoto de Nossa Senhora das Mercês; sacou da cintura uma lambedeira de doze polegadas, riscou o chão com sua ponta espalhando faísca para todos os lados, posicionou-se no meio dos dois santos com a "santa Luzia" em punho, e gritou irado:
- Eu quero saber quem é o safado que vai ter a coragem de trocar, na minha frente, minha mãezinha, Nossa Senhora das Mercês, por um soldado cor -- e fé-- da pu -- do Picuí.
A bravata do fanático e temerário beato gerou uma tremenda escaramuça; vencida a custo pela maioria dos discordantes, obrigando a cada santo retornar para o altar de origem.
O beato profano, alcoolizado e moído de pancadas, junto a outros, tomou o caminho do hospital.
* * *
Marivaldo, cabra véi!, acho que assim deve ter ocorrido. Tichau !!
Natal-RN, 17 de agosto de 2004. Gibson Azevedo da Costa

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Quase um "Grande Otelo".






O Seridó é uma região onde aparece, ciclicamente, personagens que são dignas de figurarem em obras de alguns satíricos famosos, como: Bocage, Rabelais, Felini, Chaplin, etc. Na primeira metade do século passado, nasceu naquelas bandas, uma figura, que era ao mesmo tempo, surrealista e um afetado romântico. Numa retrospectiva da saga humana, notamos a presença, por vezes amigavelmente acolhidas, de pessoas que possuem a necessidade compulsiva de mentir ou contar vantagens. Começam, sem maiores pretensões, a discorrer sobre o mais banal dos assuntos e em determinado momento, surgem como se fossem pragas de gafanhotos, os mais estapafúrdios "causos”. E aquilo é, como dizem, como moça quando perde a virgindade. Fica sem controle, como num samba do crioulo doido, fica desmedidamente sem controle. “Moça quando perde o cabaço, fica dando mais que chuchu na serra”, vaticinam os moradores mais antigos desta região. Assim também é o mentiroso. A princípio mal fala, mas age como carro que só pega no tranco, depois que pega, vai embora, célere, numa boa performance. O mentiroso só encontra dificuldade de soltar o primeiro causo, porem, o segundo vem com a desenvoltura de quem já conhece o caminho.
Voltando ao assunto, Seu Manoel de Josino nasceu no Seridó na primeira metade do século passado. Moreno claro, de estatura mediana; quase baixo, cabelos de nervosos a enrolado, olhos grandes, escuros e aboticados, bigode bem aparado, lábios grossos, dentuço do queixo fino. Este é, a grosso modo, o aspecto fisionômico deste grande personagem.
Em meado da década de quarenta, do Século vinte, quando o Brasil se envolveu com a Segunda Guerra Mundial, Manoel de Josino serviu na Força Aérea Brasileira, na Base Aérea de Parnamirim. Nesse período manteve contato com os oficiais e praças americanos, Tendo aprendido o oficio de mecânico eletricista, exercendo-o com muita eficiência. Assim como, aprendeu a falar com desenvoltura o idioma dos galegos, ou seja: inglês de beira de cais. Gostava, quando embriagado, de fazer discursos inflamados, com duas características: eram feitos em inglês e o espectador da primeira fila, era obrigado a escutar, o tal discurso, aparelhado com um guarda-chuva se não quisesse ficar todo encharcado de saliva. É bom que se diga, que tais discursos só aconteciam por insistência da canalha de plantão.
Seu Mane de Josino era um bom mecânico, e sua oficina, sempre muito procurada pelos mais diversos proprietários de carro. Sua clientela variava muito com relação ao status social; ia desde os humildes proprietários de antigos carros de praça - táxi - aos automóveis de luxo, de propriedade de ricos empresários. Atendia a todos com a mesma desenvoltura e eficiência, sempre com um bom papo a disposição do cliente. Alem disto, é honesto dizer, tratava-se de um homem muito dedicado a família; sendo bom filho, pai e esposo. Nunca se afastou da sacro-santa missão, de, dentro do possível, prover o seu lar das coisas essenciais, priorizando-as, para atendê-las com segurança. Alem disto, desfrutava de um ciclo de amizade relativamente grande, que contava com pessoas de todo tipo, todavia com as mesmas características: eram, a rigor, pessoas ordeiras, pessoas de bem. Isto no Seridó conta muito.
Num dado momento, estava seu Mane, trabalhando num alternador de um carro, quando chegou um cidadão ausente de Caicó havia algum tempo, cumprimentando-o efusivamente. Papo vai, papo vem, o recém-chegado perguntou: Manoel, como vai a
família? Foi a deixa que ele estava precisando. Parou o serviço que estava fazendo, fez um misto de pose e mesura e respondeu com a voz de taboca rachada: vão muito bem, obrigado. O mais velho, o Rui, é Economista. Hoje trabalha no Senado federal; portanto, como se vê, vai muito bem. O Radir serve as forças armadas, é sargento do Exército Brasileiro, está muito bem, graças a Deus. O Revil é bacharel em direito, também funcionário do Senado Federal e envolvido na política regional; como o amigo vê, os meninos estão muito bem. Todavia seu Mane esqueceu, supõe-se que de propósito, do Didí, seu filho caçula, também conhecido como: Espinhaço de Cobra, devido um defeito físico que o mesmo tinha na coluna vertebral, diminuindo-lhe à estatura. Didí nunca quis estudar; para o trabalho também não tinha a menor vocação. Seu passatempo predileto era freqüentar o cabaré e uma mania, incorrigível, de enfiar o dedo no nariz. Pois bem, quando Seu Mane fez o comentário elogioso aos três primeiros filhos, esquecendo de propósito, de mencionar o último, um "espírito de porco*" que apiruava na oficina, perguntou: Seu Mane, e o Didí? A resposta veio em seguida; de início..., um pouco gaguejada: o Didí... o Didí... o Didí... Bem , o Didí come caraca, porem, isto é defeito de infância ! Risos ruidosos ecoaram na oficina.
Outra boa me foi contada por Arroz; que presenciou Seu Mane contar que reabasteceu, em Parnamirim, o Enola Gay - a fortaleza voadora que transportou e soltou as bombas atômicas sobre as cidades japonesas: Hiroshima e Nagasaki. Sabe-se, a bem da verdade, que tal bombardeiro jamais sobrevoou o Atlântico Sul. Muito embora, segundo ele, Manoel de Josino contou que, segurando na mangueira de combustível conversava com o piloto da aeronave, procurando aconselhá-lo, mostrando intimidade: “olhe Mike, se eu fosse você, não iria. Você não imagina a quantidade de pessoas que vai morrer”. “Como é que vai ficar sua cabeça, rapaz?” Disse mais, que encontrou-se muitos anos depois com aquele militar americano, nas lojas “quatro e quatrocentos”, e, o mesmo tinha confessado extra-oficialmente: “Josino você tinha razão. Até hoje não consigo dormir direito, pensando naquela covardia”.
Eita, Seu Manoel! No surrealismo você era incomparável. Assim sendo, amigos, dei umas poucas pinceladas, no dia a dia e na verve criativa deste mambembe da ilusão. Deus o conserve, se estiver vivo, Deus o tenha, se já se foi.
Natat-RN, out/2000. Gibson Azevedo da Costa

De braços abertos e não era sobre a Guanabara.




No começo dos anos sessenta havia uma efervescência e uma expectativa enorme com relação ao desenvolvimento do nosso país. Alguns lugares, do território nacional, testemunhavam a possibilidade de mudanças na qualidade de vida do cidadão de classe média - classe social bem definida no Brasil daquela época. Até mesmo o proletariado vivia com mais dignidade. Regiões hoje empobrecidas, sem perspectiva alguma, eram, em passado não muito remoto, pujantes, vibrando de esperanças em melhores dias, de uma juventude sadia ciosa nos seus deveres caminhando a passos largos rumo aos seus ideais. A escola pública, servia de modelo para o ensino até dos colégios da iniciativa privada, com um professorado atuante honrando o bom nome da mais digna das profissões; ganhando salários que, se não eram os mais justos , não eram aviltantes como os atuais. Lembro dos concorridos concursos para a bolsa de estudos, que visava habilitar os estudantes carentes a freqüentarem os colégios particulares. Do lado econômico, percebia-se, até nas pequenas cidades, um movimento ativo no comércio, na indústria, por vezes incipiente, mas não menos promissor. Em suma, um animador volume de negócios. É preciso que se diga, que a população rural (campesina) era bem superior a população urbana. Que bom que era assim! Havia com isto, uma maior produção agrícola e um maior número de emprego, fixando o homem ao campo. Foi neste clima, que alguns "espíritos de porcos"*, alegando corrupções, desorganizações da sociedade e um perigo constante da não permanecia do Brasil no rol das nações livres, resolveram dar um malsinado golpe de Estado. Esta foi a maior desgraça que aconteceu com nossa terra, desde o dia do achamento*, feito dos portugueses nos idos de mil e quinhentos. Este assunto jamais se esgotará, e certamente, será melhor comentado em outra oportunidade,
No começo daquela década, havia porem, algumas situações e conceitos que continuavam intactas desde alguns séculos. Estes tabus, principalmente os referentes à honra, eram naquele tempo, impensável transigir. Por exemplo: o homem jovem ou maduro que mexesse* com moça de família, geralmente, pagava com a vida por tal imprudência. Se o homem fosse casado o caso complicava-se ainda mais, pois sendo solteiro e dependendo de uns acertos entre as famílias, o estrago podia ser parcialmente remediado. Arranjava-se um casamento às pressas, obrigando o meliante a reparar, a muque*, o erro cometido. Este desaforo, todavia, jamais seria esquecido pela família da moça e os nubentes para sempre banidos - nunca seriam perdoados. Viveriam juntos, porem renegados pela família - jamais abençoados. Se a moça se perdesse* com homem casado, geralmente terminava na zona*. Algumas eram proibidas de entrarem até nas igrejas. Isto era a verdadeira perdição. Algumas não suportaram a perspectiva de tamanha indiferença.
Lembro-me agora, duma manhã longínqua, de um domingo distante, na primeira metade do primeiro semestre, do ano de mil novecentos e sessenta e três, na cidade de Caicó. O rio Seridó já tinha descido com suas benfazejas águas, que represavam o rio barra nova, mais abaixo, no encontro dos rios, já fora do perímetro urbano. Já se prenunciava o fim do inverno*. Ali nas margens do Seridó voltadas para a cidade, num local próximo ao bairro do acampamento onde havia um amontoado de
palha de arroz*, foi encontrado, meio ao acaso, o corpo de um recém-nascido. Toda a população para lá se deslocou, só assim, acreditou-se que tal desatino pudesse acontecer com animais superiores, principalmente, com o homem. Era verdade, lá estava uma criança de poucos dias de nascida, do sexo masculino, gordinho, olhinhos baços, porem abertos, como se estivesse a observar o céu muito azul, manchado de nuvens brancas, daquela manhã seridoense. O que mais chocava naquela cena, eram seus bracinhos abertos, na mesma clássica posição das pinturas religiosas, que mostravam o menino Jesus na manjedoura, retratando o seu nascimento. Aqueles braços estavam abertos não para abençoar e sim para pedir ajuda, pedir amparo, proteção, etc. Onde estavam os homens de bem, que não o protegeram? Onde estavam as entidades de classes e as religiosas, que não deram proteção e amparo, a esta moça que sucumbiu ao implacável desejo sexual, obedecendo a ordem imperiosa dos hormônios, inerentes aos jovens, num impulso reprodutivo involuntário? Não havia ainda se popularizado a pílula anticoncepcional. O peso da ignorância, de, no mínimo, mil anos, caiu nos frágeis ombros desta pobre moça, ao ponto de, sem escolha, sacrificar sua cria.
A sociedade organizada se manifestou em todos os sentidos depois do fato consumado. Assim que um cão vira lata* de faro* aguçado, remexeu na palha de arroz encontrando o pequeno cadáver, ocorreu como se alguém tivesse mexido num vespeiro. A polícia começou a investigar, de emergência, os possíveis culpados. Investigações, que se mostraram improdutivas, com o passar dos dias, meses e anos, quando não se chegou a nenhuma conclusão. A igreja, através dos seus meios de comunicação, procurou de todas as maneiras, persuadir a população a dedurar* essa pobre coitada, que, pelo seu crime, só era digna de pena. Lembro que alguns dias depois houve uma comemoração no auditório do Colégio Santa Terezinha, alusiva ao dia das mães, quando, num determinado momento, foi facultada à palavra. Deste momento, lembro-me com memória fotográfica; apresentou-se, como era de costumes nestas ocasiões, um prodígio da oratória daquela época: o estudante secundarista do Colégio Diocesano Seridoense - François Silvestre.
François Silvestre, hoje Advogado, é o mesmo que publicou excelente livro de contos - Rio de Sangue - no começo dos anos oitenta. Naquela época, François já impressionava muito com sua maneira desinibida de falar em público, apesar da pouca idade. Talvez contasse com dezesseis anos de idade. Branco, de baixa estatura, um pouco rouco, imberbe e com uma basta cabeleira. Discursava como gente grande. Pois bem, foi-lhe concedida à palavra. François, sempre muito eloqüente, desmanchou-se em elogios, como era natural que fizesse, a todas as mães do mundo independente de cor, raça ou credo e muitas outras alusões apropriadas ao dia das mães, que não me recordo no momento. Foi aí, como todo bom "discursador"*, que apelou para o lado emocional do assunto, abordando a maternidade como coisa santa, como de fato o é. Lamentável, porem, foi quando citou o caso ainda recente, execrando ao máximo àquela mãe desnaturada, que não tinha nem a coragem de confessar o seu crime. No final, aplausos e benção, etc., etc. Penso que aquele adolescente, quase menino, empolgado com sua própria verve, evitou discorrer mais profundamente em assunto tão delicado, preferindo, talvez por inexperiência, seguir os ditames daquela época.
Na minha modesta opinião, aquela desventurada jovem, será julgada todos os dias que restarem em sua triste vida. Será um julgamento sem a ficção dos
Tribunais de justiça. Será um julgamento feito diuturnamente, na intimidade de sua consciência. Quem somos nós para julgá-la? Oh Deus! Por que, depois de tantos anos, veio-me a lembrança um assunto tão triste?
"Quem estiver isento de pecados que atire a primeira pedra!"
Natal - RN/Nov/2000. Gíbson Azevedo da Costa.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Motivo de discórdias




Inúmeras vezes, até os fatos que fogem da rotina, do habitual, caem no esquecimento das imagens poeirentas e opacas, da maioria das memórias puídas como molambos, a desintegrarem-se, nas batidas implacáveis dos tempos. E quando são, no rebuscar das lembranças, citados por alguém que se preocupou em não esquecê-los, são, na maioria das vezes, contestados com veemência. Não por que, quem contesta sabe mais que os outros sobre aquele assunto; e sim, porque determinados fatos e diabruras ocorridos a umas boas dezenas de anos - "tijolos de jubileu"-, tornam-se, na distancia do tempo, algo pouco palpável; misturando-se assim aos mitos e aos trancosos, tão comuns no imaginário dos povos do sertão. É justo que tais histórias sejam esquecidas ou mesmo diminuídas a sua veracidade? Acreditamos que tais condutas, alem de nada somar, nada prova. Assim sendo, é mais saudável que admiremos as reminiscências, algumas jocosas outras tristes, do rico repertório de troças e chistes, que fizeram, e, que fazem parte do dia a dia dos viventes dos sertões nordestino. Uma destas histórias nos foi contada por Marivaldo Ernesto; dizendo que a ouviu de Murilo Limeira, um comerciante honrado, um decano septuagenário, parte integrante de família nobre daquele município. Este, por sua vez, disse que tomou conhecimento do causo, através de Seu Juvino Pereira - Venerável da Maçonaria-, sendo dos mais ilustres homens do lugar; cidadão de uma credibilidade a toda prova; motivo pelo qual, era sempre o escolhido para "segurar as apostas", nas épocas das campanhas políticas acirradas, quando ainda não existiam as pesquisas eleitorais. Seu Juvino jura que o fato aconteceu; e o conta com detalhes. Existe, entretanto, a contestação feita pelo radialista Tuca Almeida - sobrinho do ex-ministro José Américo de Almeida -, que não acredita em nada do que foi relatado, Muito embora, Murilo tenha feito questão de reafirmar a história na sua presença. Como se vê, é discutível o mérito, meio a testemunhas e palpiteiros! Sabe-se que, aconteceu:
Lá para os meados da década de trinta, um humilde motorista de caminhão da cidade de Cuité na Paraíba, transportava agave (sisal) para o porto do Recife. Porem, nestas viagens - que geralmente duravam quinze dias, devido as estradas ruins e mal conservadas, e ao maquinário ronceiro dos caminhões de então -, levava por entre a carga, alguns produtos como: milho, feijão, ovos, queijos, manteiga do sertão, creme, nata, cocada de leite; compotas de frutas da região como: goiaba, mamão, banana, casca de laranja, caju, jaca, etc.; mercadorias que passava "no mole" pela fiscalização estadual dos dois estados. Isto se constituía, numa viração, num extra, que engrossava a renda familiar ao final de cada mês. Apesar disto, vivia insatisfeito com o que ganhava, e procurava, sempre, alguma nova maneira ou algum novo produto, que pudesse alavancá-lo da sua condição de penúria, de relativa indigência.
Certa vez ao chegar ao cais de Santa Rita - Recife velho -, perguntou a um dos Cabeceiros que descarregavam os caminhões: "se ele não sabia da existência de algum produto, que tivesse dando um bom lucro naquele momento".

"Sei!"- respondeu ele - "Merda de cachorro!" "Tem um japonês qui tá
comprano - concluiu, o pegador de volumes.
"Merda de cachorro?" Pra que, esse japonês, quê isso?"- perguntou com surpresa, o pobre e crédulo motorista.
"Sei lá! Tão dizeno quê pá fazer reméido pá duença braba; diz qui cura inté o canço" - respondeu, o informado cabeceiro; também adiantou o preço que o japona estava pagando por um quilograma de esterco canino, como devia empacotar, e tudo o mais...
Meu Deus!- pensou Zé motorista - será quê uma garrafada nova? Tem umas, qui são boa pra curar pereba...; outras, serve pra limpar o sangue; e umas interfere na milhora da impotença – deixano o home birimbano mais...!!! Só pode ser isso..., um reméido novo. Diz qui cura inté o canço!
Voltou Zé motorista, para a sua Cuité, matutando quanto ganharia em cada viagem. Na realidade, ganharia mais do que o fornecedor de agave, mesmo que ele só levasse uns poucos quilos nas primeiras viagens. Urgia, entretanto, uma tomada de posição. E foi o que ele fez, ao chegar ao seu rincão, na Paraíba. Lá chegando, providenciou uns poucos quilos do produto, carregou o caminhão com agave e "picou a mula" para o Recife. Ao chegar ao porto para embarcar a fibra para exportá-la, procurou, sem sucesso, entrar em contato com o cabeceiro. Muito esperto, este, soube da sua chegada; e, ficava se escondendo, nunca sendo encontrado. Aflito, o motorista procurou o gerente e perguntou: "se ele não sabia do japonês que estava comprando merda de cachorro pra fazer remédio". O gerente deu uma gargalhada e disse que: "aquilo era uma brincadeira dos rapazes do embarque".
Mas que decepção! Servir de motivo de risotas, escárnios - infindáveis mangações!
Voltou assim para cuité, aquele humilde profissional do volante, para degustar sua vergonha, curtir a sua tristeza.
Ao chegar a sua terra, notou que a situação era pior do ele podia ter imaginado: havia um verdadeiro alvoroço naquela pequena urbe. Crianças e adultos revezavam-se nas perseguições a cachorros vadios, para flagrarem o momento exato que os citados dispensariam suas fezes. Cachorros que nunca receberam mimo algum em toda sua vida, viam-se, agora, tratados a pão-de-ló; com a finalidade pouco dissimulada de: na medida em que fossem bem alimentados, produziriam, sem dúvida, uma maior quantidade de esterco.
A notícia espalhou-se rapidamente como a queima de um rastilho, por toda
região do Curumataú, no Seridó Paraibano; chegando até às cidades fronteiriças no Seridó potiguar. Eram notícias de prosperidade, prenúncios de riquezas...
Com a chegada do motorista, a cidade já contava com uns seiscentos quilos de merda de cachorro armazenada. Tudo organizado! Lista feita, contabilidade em dia! Sabia-se perfeitamente o peso e o valor de cada quinhão, correspondente a cada pessoa, naquela monumental "ruma de merda". Não eram só as pessoas pobres, os envolvidos naquelas atividades atípicas. O Boticário opinou, representando à saúde daquele arruado, enaltecendo o valor das novas idéias na farmacopéia, visando melhorar a qualidade de vida do homem, principalmente dos mais pobres. Até mesmo a igreja, através do seu pároco, procurava organizar seus fiéis, visando arrecadar o seu dízimo daquela súbita e estranha fonte de recursos. O Juiz de Direito fez valer a sua autoridade: desfazendo questiúnculas, acalmando ciumeiras; orientava o Delegado de polícia para que, preventivamente, fossem evitados os roubos de bosta; com se, de ouro, estivessem tratando. Alem do mais, a certa altura dos acontecimentos, percebeu-se, para decepção dos mais corretos, que no meio daquela montanha de merda já havia uns duzentos quilos de bosta falsificada. Bosta, do tipo que, não passava no crivo dos especialistas mais exigentes.
Foi no entanto, a princípio, um grande clamor, quando se soube que tratava-se de um equívoco, uma brincadeira de mal gosto, uma pilhéria!
A população ficou paralisada como que ouvindo um dobre de finados, ao ver cair por terra seus projetos de crescimento econômico, ao constatar-se, sem delírios, que tudo não passara de um trote, um embuste.
Passado algum tempo, esta desagradável aventura adquiriu ares de comicidade; visto que, o ser humano tem o hábito de rir de si mesmo, e deleitar-se com suas próprias mazelas.
Essa história é conhecida, até hoje, por algumas pessoas idosas da região do Cururnataú. Algumas, afirmam que presenciaram o fato. Outras torcem os lábios com desdém e sentenciam: “Balela! Nunca existiu!!"
Será que não?- perguntamos hoje...
Naíal-RN, 07/abril/2004. Gibson Azevedo da costa

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Alguma semelhança é mera coincidência

Na natureza, encontramos espécimes animal, que, mesmo teimando em não aceitar, temos de admitir que alguns deles são possuidores de carismas e sentimentos quase humanos. Senão, vejamos: No zoológico da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, residia o macaco Tião, que tinha por habito, jogar merda nos políticos desavisados que por lá apareciam. Fez tanto sucesso que chegou a ser eleito prefeito, da cidade dita como maravilhosa. Um bode cheiroso logrou êxito nas eleições municipais, da cidade de Jaboatão dos Guararapes. Outros, não entraram para a política, mas, destacaram-se com brilhantismo noutras atividades, certamente mais agradáveis. Neste mundo maravilhoso, existia Coto*.
Cotó era um jumentinho de pequeno porte, que vivia, com outros seus pares, nas terras da sede do Batalhão de Engenharia e Construção, na cidade de Caicó. Na região do Seridó, ele foi mais famoso de que certos Deputados federais. Cotó destacou-se facilmente, porque apesar de ser um animalzinho de físico pequeno, tinha o órgão reprodutor de tamanho descomunal, desmedidamente avantajado, e um insaciável apetite sexual. Quando cismava de passar a perna numa jumenta no cio, percorria, se preciso fosse, léguas em galope de perseguição, para geralmente, executar a dita cuja, nos lugares mais impróprios, ou seja, em frente ao Posto de Comando.
Fotógrafos profissionais e amadores disputavam as melhores poses, pois, tais fotos, eram muito requisitadas pela soldadesca em dias de recrutamento*. O soldado que não tinha uma foto de Cotó, em ação, não serviu no 3º Batalhão de Engenharia e Construção.
A alimentação de Cotó - sempre de primeiríssima qualidade -, era feita a base de farelo de pão com leite e alface. Esta dieta, segundo dizem, o mantinha sempre aceso com relação à alimária. Libido a mil! É como diz o ditado popular: "era tratado a pão-de-ló".
Habitava àquele micro-cosmo gozando de muito prestígio junto aos oficiais mais graduados. Se fosse humano, diríamos que teria patente de Capitão, ou talvez, de Major. Era comum, quando Cotó passava naqueles famosos trotes, ouvir-se também, o tropel de coturnos em disparada, a movimentarem-se, céleres, indiferentes às divisas que porventura estivessem a lhes enfeitar os ombros. Irmanavam-se todos, na perseguição daqueles momentos engraçados, de extrema naturalidade, que a maioria daqueles homens feitos, saudosos de suas infâncias, assistia, e por instantes, voltavam a ser meninos. Daqueles singelos e telúricos momentos, participava, quase sempre, o Coronel comandante daquela corporação militar.
Certa vez, vinha Cotó no seu afazer diário, correndo empolgadíssimo no encalço de uma fêmea nova, naquele galope sem tréguas, tomaram a direção das oficinas de máquinas pesadas. Por lá chegando, em alta velocidade para asnos e muares, estando a dupla, já muito próxima de uma caçamba, a arisca jumentinha deu o famoso "drible de corpo” *, e com isto, Cotó perdeu o controle de sua carreira, indo ao encontro àquela pesada estrutura metálica, acidentando-se seriamente. Nunca houve naquela corporação do glorioso Exército Brasileiro, um tamanho alvoroço*. Todo mundo foi notificado a seu tempo. O recruta bronco*, dizia: - Cotó teve um sucesso*. Outro, mais sentimental, comentava: - mas que azar, teve o bichinho! Alguns se perguntavam: - será que ele escapa*? Com um ferimento profundo na testa, as chances de Cotó eram poucas.
O pessoal de alta patente, de imediato se pronunciou através do próprio Coronel, que ordenou que o removesse para a enfermaria dos soldados, onde foi feito o atendimento de urgência. Neste momento, o oficial veterinário sentiu-se preterido, demonstrando sua indignação ao Capitão médico, que lhe respondeu em réplica: "- olhe aqui tenente, não admito que você fique entrando na minha enfermaria, a bangu*! Você só se sabe cuidar de porcos. Medicina, é minha responsabilidade!” Ao que se sabe, desta discussão, resultou o tratamento "vip" * dispensado ao animal, onde prescreveram anti-inflamatórios e antibióticos, só aplicáveis em humanos poli-traumatizados. Em resumo, apesar de todos os prognósticos lhes serem desfavoráveis, Cotó lutou uma boa luta e saiu vitorioso. Quando os primeiros sinais de cura ficaram evidentes, com ele manifestando desejo de se alimentar, de repente, apareceu uma turma de soldados, com uma variedade respeitável de dietas para recuperar rapidamente o convalescente. Tais como: frutinha de gogóia*, sabugo de milho verde, capim elefante com farinha de mandioca, castanha de caju com sal e casca de ovo, bagaço do miolo de cana caiana com sementes de tomate, etc., etc., etc. Pra beber, salmoura de carne verde* misturada com ovos crus. A recuperação foi lenta, porem completa. E confirmou-se nas alegres estripulias*, as mesma que ele fazia antes do trágico acidente. Tudo voltou a ser como antes - a alegria reinou na caserna.
Dias destes, cobraram-me notícias de Cotó, e, na verdade, nada pude informar. Será que o levaram para São Gabriel da Cachoeira, quando para lá transferiram o batalhão? Não acredito nesta loucura. Acho que ainda corre solto, nas reminiscências dos conscritos daquela época.
Natal-RN/out./2000.
Gíbson Azevedo da Costa.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Resposta a elogios meio a efemérides

Carta ao amigo Marivaldo Ernesto dos Santos nos idos de 2005.
Caro amigo marivaldo
Desejei-lhe a poucos dias, uma pacífica passagem das festas natalinas e um trascorrer venturoso nos dias do ano em curso; que pudessem gozá-los felizes, você e suas crias, frutos de seus amores comungados com sua "cara-metade", que os anos e dias teimam em testar até hoje, encontrando sempre a mesma resposta.
Eis que, para a minha surpresa, brindaste-nos, ao retribuires os humildes, insignificantes, porem sinceros votos que vos fizemos, com uma linda - talvez perfeita -, trova; para o deleite dos meus olhos, dando prazer ao meu espírito, calmando ainda,deveras, minh'alma. Agradeço-lhe sinceramente! Cometo entretanto a heresia de responder-lhe, na essência, também em forma de trova; que reconhecidamente não é "minha praia". Ouso entrementes fazê-lo:

Para relembrar sua trova:

Amigo "pena de ouro"
Neste Natal de Bondade
Guarde consigo um tesouro
De paz e prosperidade!

Respondendo ao rico mimo, descrevo ao quadrado:

Sendo a fonte da bondade
Olhastes uns escritos meus
Clamou-me prosperidade:
Fosse a vontade de Deus!

Devolvo a sinceridade
Com sinceros votos meus
Duma sincera amizade:
Sinceros, a ti , e aos teus!


Abraços do amigo Gibson.
Natal-RN,16 de Março de 2005


06/10/2208

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

No vazio atual faltam-lhe as bênçãos

No rastro da missiva de 25/09/2005, do Dr. Paulo Balá (agora Acadêmico da nossa Academia de Letras), ao eminente jornalista do Jornal Tribuna do Norte, Woden Madruga, queixando-se da falta de coisas tão comuns no passado, e, enaltecendo os saudosos sentimentos a alguns familiares ascendentes, e amigos destes, que povoaram, indeléveis, momentos de sua infância e de sua idade madura de homem respeitoso e respeitador..., segue uma glosazinha baseada na essência do desabafo saudosista deste grande missivista:"No vazio atual faltam-me as bênçãos..."
Mote:
Pediu "bença" a "todo mundo"...
Dos velhos e das caritós.
Glosa:
Vem meio a "banzo" profundo
Lembranças de dias idos,
E a seus entes queridos,
Pediu "bença" a "todo mundo".
Respeitou com amor profundo
Padrinhos, tios e avós,
Hoje diz, Balá, pra nós:
- Não tendo a quem recorrer...,
Sinto falta do "benzer"
Dos velhos e das caritós!

Natal-RN, 02/Out./2008.
Gibson Azevedo ( Poeta )

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Eram sonhos, seu mundo

Eram sonhos, seu mundo
Manoel Vintém era assim conhecido, numa cidade sertaneja como muitas do nordeste velho de guerra*. Pouca gente conhecia o seu verdadeiro sobrenome, todos porem, conheciam aquela curiosa figura humana. Homem branco de estatura mediana, cabelos lisos e penteados para trás, feições afiladas, denunciavam que na sua gênese, houvera pouca ou nenhuma mestiçagem. Era um forte apesar de ser magro. Tinha as suas esquisitices: muito arredio e taciturno, vivia, a rigor, envolvido com o seu trabalho, que muito o honrava e ao qual se dedicava da Segunda a Sexta feira. Sua profissão é uma das atividades mais antigas da raça humana: a carpintaria. Como sabemos, já na construção da Arca Bíblica, Noé, serviu-se desta humilde arte. A carpintaria também honrou Jesus e seu humilde Pai na antiga Palestina. Para a nossa sorte, a carpintaria chegou aos nossos dias através de pessoas honradas, como no caso do cidadão Manoel Vintém. Como já dissemos, da Segunda a Sexta feira, dedicação exclusiva ao trabalho e a família; mal cumprimentando as pessoas. Entretanto, encerrado o expediente da Sexta, feira feito as contas semanais com o patrão, despedia-se dos colegas de labuta com um curto, "inté "*. Da oficina, local do trabalho, até o centro da cidade, distava uns oitocentos metros; porem aquele pequeno trecho de via pública, curiosamente concentrava um número excessivo de bares, biroscas e assemelhados. O velho Mane gostava de se benzer* em todos eles, de maneira que chegava ao centro da pequena Urbe, de cara cheia, bêbado* até a alma. A cachaça soltava-lhe a língua, alterava- lhe o fácies; em suma, transmudava àquela pessoa. A diferença era tamanha, que, de tão ridículo, tornava-se muito engraçado, hilariante mesmo. Naquelas suas carraspanas, Mane, bebia até cair, geralmente num local movimentado; pois o velho Vintém caia, mas não adormecia, e a cada pessoa que passava, com um olho aberto e outro fechado, e a cabeça meio que levantada, dando a impressão que ia levitar, tentava puxar uma conversa. Homem de pouco estudo, ficava muito falante e de verve pseudo rebuscada. Segundo afirmava sob efeito etílico, era possuidor de uma valentia sem tamanho e num arroubo afetado, costumava dizer: "olhe, eu tenho tanta coragem, que até a merda treme com medo de mim mesmo!".
Nosso homem, é desnecessário dizer, que nestas condições, era a graça da populaça, divertimento gratuito de crianças e de adultos. Para entornar mais o caldo, nestas horas, os mais afoitos inventavam uma estória que não tinha nada de verdade, ou seja, que sua honrada esposa tinha um chamego com um seu compadre e vizinho. Bastava o Mane arrotar*as valentias, que aparecia um não identificável que perguntava: "e o Chico de Aninha?" A gargalhada era geral. Vintém, sem se alterar e também sem se levantar, dizia: "você é um menino moço e eu não quero lhe estragar, porque se não, eu fazia você cagar macarrão numero doze". A gargalhada dobrava a intensidade.
Certa vez, vindo Deus sabe de onde, seu Mane cruzava ao meio a Praça José Augusto, por volta do meio dia de um verão seridoense, quando de repente, surgiu um gato que fugia de um cachorro, como manda a natureza. Naquela época, aquele logradouro era muito desprovido de vegetação. Era quase um descampado. Pois foi aí que aconteceu o impensável; o gato apavorado não vendo como escapar da citada perseguição, subiu de improviso até os ombros de Mane Vintém, zunhando* sua cabeça. Ai veio a parte mais engraçada, seu Mane deu de "garra" do gato com uma das mãos, e com a outra empurrava o cachorro que não passava de um “Vira lata”, e bradou: - ocês tão muito eqüivocado*; daqui a pouco vão querer mijar em mim! Xôô, bicho!
Doutra* feita, a cidade estava às escuras, pois ainda não havia chegado a energia de Paulo Afonso; nosso herói curtia uma Carraspana deitado numa calçada, quando um sujeito focou no seu rosto com uma lanterna. Foi aí que Mane Vintém saiu-se com essa pérola: "Apague essa porra seu fela da puta , qui o delegado daqui tem a mania de levar bebo* pra drumir* na cadeia; e eu num* quero que ele me veja não!". Uma pequena gargalhada do sujeito envolto na penumbra, que lhe disse: “Bora* Mane, entre na Rural que eu vou te deixar em casa". Era o delegado de Polícia.
Na Segunda feira, logo cedo, adentrava à oficina de carpintaria aquela figura calada, taciturna, como se nada de anormal tivesse acontecido. Dizem que já faleceu. É provável que tenha ocorrido, mas, imagens como as que percorremos, ainda não apagaram. Seu Manuel Vintém viverá por muitos anos na memória dos moleques do Seridó de outrora.
Natal - RN, out/2008. Gibson Azevedo da Costa
Observação: O eminente advogado o Dr. Francisco de Assis Medeiros, ex-prefeito de Caicó, popularmente conhecido como Chico Burra Cega, conta em seu livro "1968 em Caicó", lançado nos últimos dias do século vinte pela Editora ServGrafica & Copiadora Natal-RN, descreve uma cena diferente, da que aqui foi descrita, com relação ao episódio do gato e o cachorro com o velho Mane Vintém*. Inclusive, se colocando como testemunha do citado ocorrido. A bem da verdade, ele pode está coberto de razão, porem a versão que celebrizou-se no anedotário popular, foi a que modestamente descrevi. Assim sendo, sem polemizar, forneço o meu testemunho e dou fé!
Natal-RN,Outubro de 2008-10-01
Gibson Azevedo da Costa

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pesquisa no "Pai-dos-burros".

É salutar termos por regra no relacionamento com nossos semelhantes, o exercício diário de um sincero companheirismo e, em alguns casos, a exposição transparente de uma espontânea amizade. É mais ou menos assim que me sinto com relação a Valdemar Sales. Ele, já tendo dobrado o "cabo da boa esperança ,há algum tempo", mantém todavia um humor à prova de idade e vai levando simpaticamente sua vida sem maiores tropeços. Vivendo e achando bom ! É isto... A facete que mais o caracteriza, bem humorado que é, é fazer uso, sempre que precisa ,de uma sátira mordaz, desaguando, à miúde, numa impressionante picardia. Para ele não existe pergunta sem resposta. Isto granjeou-lhe fama meio aos conhecidos e amigos.
Certa vez, há alguns anos, antes de aposentar-se, um colega de trabalho, bem mais jovem, chegou -se com uma pegadinha pra cima de Valdemar:
-Valdemar!, eu estou fazendo um trabalho de português lá no Colégio, no qual o professor nos pediu o significado de algumas palavras. Eu estava me saindo até bem, mas tem uma aqui que eu não consegui desenrolar de jeito nenhum ! Será que você não poderia consultar o seu Aurélio, que é mais completo do que o meu que é de bolso?
- Que palavra e essa "meu bichim"? - perguntou Valdema, como era mais conhecido.
- A palavra é: aleodagem - disse o cínico, evidenciando as sílabas.
- Ah! isto é coisa fácil! Amanhã mesmo eu lhe digo... Não se vexe, não!... - retribuiu com a mesma moeda: o cinismo.
No outro dia, chegou ele com uma estória estranha: que na forma erudita não existia significado; entretanto, no linguajar popular, era por demais conhecido o seu sentido.
- Então diga, Valdemar, o que quer dizer aleodagem! - insistiu o colega, curioso.
- Olhe isto não tem em dicionário, não! Mas o povão sabe que é uma espécie de mofo, que pela falta de uso, dá na parte de trás dos testículos de homens com a idade avançada! Sintetizou Valdemar, orgulhosamente, batendo martelo sobre o inusitado assunto.
Esse acontecido rendeu uma glosa comemorativa ao citado causo:
Mote:
Oque é aleodagem?...,
Argumentou Valdemar.

Glosa:
De conhecida "rodagem",
Viu-se meio embatucado,
Quando lhe foi perguntado:
O que é aleodagem?
Rebateu com malandragem,
Depois de muito estudar
E o "pai-dos-burros" falhar:
"Pru povo e na tradição,
Isto é mofo de cunhão!"
Argumentou Valdemar.

Natal-RN, 30/Set./ 2008
Gibson Azevedo - Poeta

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O militante Solino

Alguns natalenses, notadamente os que moram ou frequentam o centro da cidade, podem casualmente ter conhecido o militante por vocação que atende pelo nome de "Solino". Esse personagem, tornou-se conhecido desde as primeiras greves que eclodiram depois de queda do regime militar(durante o longo mandato do Presidente Sarnei). Ora! quem não lembra das persistentes, periódicas e abusivas greves dos bancários, acontecidas naqueles primeiros anos, ditos, da redemocratização do país? Ocorreram muitas, e não só as dos bancários; que antipaticamente paralisava o país, como também desencadeou uma ciranda de umas tantas outras, que vieram a reboque daquele primeiro grande movimento grevista de paralisação geral da nação. Para a partir daí, galoparem - os demais sindicatos -, irresponsavelmente, na moda das reivindicações e do protesto, contra uns resquícios de lixo autoritário que teimava em permanecer em voga. Resultado: somaram-se perdas de ambos os lados no rescaldo destes movimentos(fechamento de banco ou de agências bancárias, mecanização e automação dos serviços bancários, proibição de horas extras, etc.), só para citar alguns motivos que sobraram na diminuição dos postos de trabalho e o consequente empobrecimento da classe trabalhadora.
Naquele caldeirão de efervescência reividicatória, mesmo sem ter trabalho, ou seja sem pertencer a sindicato nenhum, como se fosse um "papagaio de pirata", esbarrávamos com a presença de Solino. Greves de motoristas - mesmo sem saber dirigir -, de garis, de professores, de profissionais de saúde, etc, lá estava Solino com sua bandeira vermelha de um Partido de "extremíssima" esquerda. Por isto mesmo, nunca teve tempo de trabalhar. Nunca teve ofício certo, sempre sobrevivendo da ajuda e cooperação dos conhecidos. Ainda hoje é assim que ele vive: bolsa enorme - de panfletangem - a tiracolo, bandeirão ao ombro e muita conversa mole. Toda eleição para a renovação da Câmara Municipal, lá estava o nome dele para ser apreciado pela população do município. Este ano, ao que parece, não conseguiu legenda para candidatar-se à uma cadeira naquele parlamento. Muito embora, antes das convenções dos Partidos, andasse garimpando votos nos principais antros da boemia da nossa cidade. E num destes périplos eleitoreiros, pousou com todos os seus apetrechos no Bar de Mário Barbosa, tradicional boteco situado no provinciano bairro Barro Vermelho. Lá chegando, descolou algumas doses de bebida, conversou, descontraiu-se; ao ponto de às tantas, bastante relaxado, soltar, sem perceber, uma furtiva "bufa" que foi motivo de ruidosa reclamação dos pinguços indignados. Eu, que me encontrava por trás do citado indivíduo, quase morro sufocado.
Bem, este episódio rendeu-me um mote que, prazerosamente, glosei:

Mote:
A bufa de Sêu Solino
Quase mata este poeta.

Glosa:
Revirou no intestino,
Sacolejou na gaiteira,
E escapou sorrateira...
A bufa de Sêu Solino,
É gás de raro refino,
Que a todo mundo afeta...
Solino com a bunda ereta,
- No garimpo da eleição -,
Queimou um "peido-alemão":
Quase mata este poeta!


Natal-RN,26/Set./2008.
Gibson Azevedo ( Poeta )

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Matéria que não saiu na coluna do Madruga

No início do mês de Março, do ano de 2005, o meu dileto amigo Evandro Fernandes, perguntou-me se eu já havia percebido que na coluna do Woden Madruga, do jornal "Tribuna do Norte" da nossa Capital, estava havendo uma exibição gratuita de algumas glosas que chegavam ao email daquele destacado Jornalista. Sou muito desligado e ainda não havia detectado aquela festança poética. A situação era a seguinte: o Dr. Paulo Bezerra, mais conhecido pelos íntimos por Paulo Balá, literato que adotou o estilo epistolar de escrever - o que faz muito bem, é bom frisar -, numa de suas muitas cartas escritas àquele jornalista, que as publica na íntegra, referia-se com tristeza ao estado de abandono ao qual estava entregue o antigo e histórico bairro da Ribeira, que, como todos sabemos, já na sua fase de decadência, no turno da noite transformava-se em ambiência de prostituição, jogatina e bebidas... O descaso dos poderes públicos e mesmo da população com aquela quadra urbana de nossa cidade, foi tanto, que a desertificação de suas artérias seria de certa forma inevitável. É o que hoje constatamos. Pois bem, a missiva de Dr. Paulo tratava deste assunto e na empolgação dos seus argumentos, esbravejou: - Findou-se a velha Ribeira... , nem "quenga" se encontra mais! Isto foi o suficiente para que alguns amigos, e, ou amantes da poesia, postassem algumas glosas no saite daquele Jornalista, que todo dia passou a publicar duas delas. Uma súbita enchente de emails atravancou aquele endereço eletrônico com glosas, algumas de péssimas qualidade. Madruga não viu outro jeito senão o de dar um basta naquela zorra. O que eu lamentei muito, pois a minha glosazinha chegou, creio eu, na fase de encerramento; e não sendo notada, não foi publicada. Triste fiquei, pois tratava-se de um mote sete silábico perfeito.
Bem, a vida segue o seu curso; mas, para desencargo de consciência, aqui vai a poesia que ficou acidentalmente encoberta:

Mote:
Findou-se a velha Ribeira...
Nem quenga se encontra mais.
Glosa:
Ta igual a "fim de feira",
Desolada e mal cuidada,
Sem extrema-unção, nem nada,
Findou-se a velha Ribeira...
Nem nos antros de "Reieira",
Bordéis de mil bacanais
E de orgias ancestrais,
Hoje, não tem movimento;
Nos "ais" do padecimento,
Nem quenga se encontra mais!


Natal-RN, 25/set./2008
Gibson Azevedo da Costa ( Poeta )

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Preces e nostalgia interrompidas - conto

Preces e nostalgia interrompidas
(Francisca Paulina de Medeiros-Dona Balé)

No desejo incontido de aproximarmo-nos das coisas e hostes Divinas, incorremos no patético erro de, com naturalidade, compararmos as nossas crianças com os anjos dos céus; julgando-as incapazes de cometerem algum tipo de perversidade, delito; de perpetrarem com consciência algum lance de maldade. Até poderíamos encarar desta maneira, se reportássemos aos primórdios da humanidade quando não havia a menor noção de ética, moral ou lei. Àquele ambiente de barbárie, se justificaria a máxima que graciosamente diz: "toda criança nasce boa; sofrendo as más transformações por culpa  do meio no qual vive e desenvolve-se". Nada é mais falho e enganoso do que esta afirmativa. Uma criança como todo animal em formação, em fase de crescimento, não tem ideia que existam normas que passam interferir à sua liberdade, ao seu arbítrio desmesurado. O momento do conhecimento de tais normas é um impacto súbito que decepciona e tolhe as ações destes pequenos seres, em pleno desenvolvimento; e que naturalmente revoltam-se ao depararem-se com as primeira reprimendas, primeiras surras ou castigos, motivados por conceitos, normas e regras preestabelecidas e necessárias à convivência do homem em sociedade. É assim nas grandes cidades e mais ainda nos pequenos lugarejos. Nestes pequenos arruados é natural que os " bichos-miúdos" cresçam libertos em contado com os encantos da natureza. Isto posto, convenhamos, afloram facilmente nestes pequenos seres a imparcialidade entre o bem e o mal, trazida talvez de outras vidas ( pré-uterinas ), como muitos acreditam. Vem daí, talvez, a desordem no caráter a na conduta destas existências em começo. Diabruras mil tornam-se rotina do dia a dia na horda destes pequenos malfeitores. Principalmente, como já foi apreciado, nas grandes cidades. Pode-se, no entanto, dizer, tratar-se de afrontas inocentes, fúria de pequena monta, próprias da imaturidade, da pouca idade. É verdade, deveras, é fato. Não muda, todavia, o resultado da observação que nos leva a acreditar que já nascemos portadores dalgumas falhas. Falhas estas, que requerem exaustivos cuidados no polimento das superfícies grosseiras das colunas de sustentação do caráter destes pequenos animais, que, com o passar do tempo, decerto, tornar-se-ão homens. A maioria, circunspecto e ordeiros. Sempre foi assim..., e assim será...

* * *

Alguns exemplos , ora raros, de mulher, encontrávamos com frequência até os primeiros quartéis do século vinte e que foram surpreendentemente rareando à medida que aproximávamos do final deste mesmo século. Eram mulheres de uma fibra duríssima, resistentes às piores intempéries, que as tornavam impávidas aos mais negros e medonhos presságios. Obedientes aos pais e posteriormente aos maridos, não raro tinham vontades próprias realçando-lhes o caráter, sem, como de costume, entrarem em conflito com seus tutores naturais. Eram mulheres obreiras, de uma praticidade que saltava aos olhos; tementes a Deus - catequizadoras -, exigentes disciplinadoras para com os filhos, sem, contudo , faltar-lhes com o salutar carinho e afago de mãe tão necessários nos primeiros anos de vida. Eram criaturas admiráveis!... Quando jovens, adornavam-nas uma invulgar beleza áspera, como as existentes nas flores dos cactos dos áridos tabuleiros ou nas flores dos pântanos dos sítios de alagadiços. Na idade madura e também na velhice, adquiriam, na condição de matronas - por vezes, de matriarcas -, a serenidade hígida das velhas árvores, sem máculas que as desabonassem no seu lenhoso tronco moral. Transmitiam-nos conselhos valiosíssimos, baseados em experiências vividas ao longo de suas honradas vidas.
Assim viviam aquelas fantásticas mulheres... Particularmente, da mesma forma viveu e vivia Dona Balé. Abraçou com resignação aos desígnios de Deus; conhecendo muito cedo as agruras da viuvez, com a morte do seu finado marido. Convites para contrair novas núpcias, decerto não lhe faltaram. Não quis! Recusou-os. Preferiu seguir sozinha... Agora, por último, com os pensamentos voltados às orações votivas aos santos preferidos e às doces reminiscências de um passado distante, existia, aquela senhora, no páramo de sua merecida vetustez, um fim de vida cheio de pequenos hábitos, com horários rígidos, apesar de excessivamente rotineiros. Dentre tantos, havia o costume de à tardinha, horário no qual fazia sombra no frontispício da sua casa e corria errática uma aragem fresca por aquelas vias, colocar uma cadeira de balanço na calçada e entre uma conversa e outra, Dona Balé desfiava pacientemente as contas de um antigo rosário. Rosário sim!..., pois terço ficou para as rezas de preguiçosos, como diziam os mais velhos - seus ancestrais. Entre os seus mimos de velha, destacava-se a atenção carinhosamente dedicada ao seu estimado gato, cevado a leite gordo, queijo e carne fresca, algumas vezes durante a semana. Aquele obeso animal atendia pelo diminutivo de "bichano",ou seja: "chano", ou mimosamente "chaninho". Nunca encarou um rato na vida. E nem era necessário, já que sua dona enojava-se com tal ideia. Em resumo, aquele pequeno felino vivia de exercitar a sua beleza e sua indisfarçável preguiça. Da cadeira de balanço de onde a distinta senhora observava a, então nostálgica, cena urbana a receber os últimos e mornos raios solares do dia que findava, podia ver perfeitamente o que se passava no adro da Igreja matriz, que ficava próxima ao Grupo escolar e a Prefeitura; todos postados em volta da singela Pracinha de saudosas retretas. Nesta direção, sem esforço, tudo podia ser notado; até com certa brevidade. O mesmo não se podia dizer com relação à rua que ficava em sentido contrário; a rua que dava acesso ao Cemitério, que só crescia a importância por ocasião dalgum cortejo fúnebre.
Estava Dona Balé absorta nas suas orações, pois já se avizinhava a hora do Ângelus, sem jamais imaginar ou supor que em outra dependência da sua casa - na cozinha - desenrolava-se uma cena com o seguinte e estranho diálogo:
- Tulinha, você trouxe o "trepa-moleque"? - perguntou um dos fedelhos, vizinho e amigo de todas as horas e aventuras do seu pequeno comparsa.
- Taqui ó! - exibindo, ao tirar do bolso, o rudimentar fogo de artifício - respondeu o pequeno fedelho , neto da citada matriarca.
- Pegue o gato, Minhadela! Se não pode chegar alguém...
- Chanin!..., pssil ...ssil, pssil..., sissil!... Chanin! Com esta pantomina pueril, aqueles pequenos duendes urbanos, surrupiaram momentaneamente o adorado felino, depositário dos mimos excessivos da Dona balé.

(É bom que se explique que um "trepa-moleque" é um tipo de fogo de artifício que consiste de: sete traque e uma bomba num só artefato; ou seja: sete tiros menores sequenciados e um espocar maior no final.)

Saíram sem serem vistos, com o bichano a tiracolo, pela rua de trás, que na verdade era um beco que dava acesso aos muros das casas que tinham suas fachadas voltadas para a rua principal. Caminharam céleres em direção ao pontilhão que dava passagem sobre o riacho que serpenteava frente ao cemitério. ( Já levavam, economicamente, um toco de cigarro aceso.) Lá chegaram e, sem demora, amarraram um barbante no rabo do animal, que vendo aquela brasa bem viva, ronronava arrepiado, soprando, "zanho", como se quisesse apagar a chama de uma vela. No momento seguinte, amarraram a outra ponta do cordel no "trepa-moleque" e, sem o menor remorso, atearam fogo ao estopim do artefato pirotécnico.

* * *

Bem, o mimado gato não era afeito a grandes emoções, vivendo uma vida sem vexames, sem surpresas. Nada, a rigor, interferira na rotina da sua vida calma. Até aquele dia...
Disparou, aos pulos - incomuns, até então - , logo que ouviu o chiado do pavio e o cheiro da pólvora queimada. O primeiro tiro ocorreu quando já alcançava à esquina e, neste momento, deu conta que arrastava o próprio inferno atrelado à sua cauda. De um só pinote atravessou a rua. Quando chegou à outra calçada, a do Grupo Escolar, avistou sua dona sentada na cadeira de balanço, do outro lado daquela via pública. Neste ínterim, aconteceu o segundo espocar, que o forçou a esvaziar, de pronto, o farto conteúdo do seus intestinos. Seguiu feito um bólido, em movimentos de ziguezague na tentativa de livrar-se dos pipocos que se seguiram, até que, na pressa de entrar em casa, não encontrando a porta livre, pois a cadeira de balanço parcialmente atravancava-lhe à passagem, por instinto, deu um pulo por cima da mesma, na qual, trêmula de espanto, de lívido aspecto, encontrava-se a indefesa Dona Balé. E assim, como se fosse obra do demônio, nos subterrâneos das coincidências, a última e maior explosão ocorreu justamente naquele fatídico instante: Buumm!
- Ai, Jisuis! - foram , segundo testemunhas confiáveis, as únicas palavras que a inocente anciã balbuciou antes do inevitável desmaio, na exaustão da suas forças.

Natal-RN,24/set./ 2008.
Gibson Azevedo da costa

PS.: é bom esclarecer que o couro dos fundilhos dos citados "anjinhos", foram, devido e severamente, lenhados. Huumm...! Nádegas doídas..., dificuldade ao sentar. Ainda bem!
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