quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Eram sonhos, seu mundo

Eram sonhos, seu mundo
Manoel Vintém era assim conhecido, numa cidade sertaneja como muitas do nordeste velho de guerra*. Pouca gente conhecia o seu verdadeiro sobrenome, todos porem, conheciam aquela curiosa figura humana. Homem branco de estatura mediana, cabelos lisos e penteados para trás, feições afiladas, denunciavam que na sua gênese, houvera pouca ou nenhuma mestiçagem. Era um forte apesar de ser magro. Tinha as suas esquisitices: muito arredio e taciturno, vivia, a rigor, envolvido com o seu trabalho, que muito o honrava e ao qual se dedicava da Segunda a Sexta feira. Sua profissão é uma das atividades mais antigas da raça humana: a carpintaria. Como sabemos, já na construção da Arca Bíblica, Noé, serviu-se desta humilde arte. A carpintaria também honrou Jesus e seu humilde Pai na antiga Palestina. Para a nossa sorte, a carpintaria chegou aos nossos dias através de pessoas honradas, como no caso do cidadão Manoel Vintém. Como já dissemos, da Segunda a Sexta feira, dedicação exclusiva ao trabalho e a família; mal cumprimentando as pessoas. Entretanto, encerrado o expediente da Sexta, feira feito as contas semanais com o patrão, despedia-se dos colegas de labuta com um curto, "inté "*. Da oficina, local do trabalho, até o centro da cidade, distava uns oitocentos metros; porem aquele pequeno trecho de via pública, curiosamente concentrava um número excessivo de bares, biroscas e assemelhados. O velho Mane gostava de se benzer* em todos eles, de maneira que chegava ao centro da pequena Urbe, de cara cheia, bêbado* até a alma. A cachaça soltava-lhe a língua, alterava- lhe o fácies; em suma, transmudava àquela pessoa. A diferença era tamanha, que, de tão ridículo, tornava-se muito engraçado, hilariante mesmo. Naquelas suas carraspanas, Mane, bebia até cair, geralmente num local movimentado; pois o velho Vintém caia, mas não adormecia, e a cada pessoa que passava, com um olho aberto e outro fechado, e a cabeça meio que levantada, dando a impressão que ia levitar, tentava puxar uma conversa. Homem de pouco estudo, ficava muito falante e de verve pseudo rebuscada. Segundo afirmava sob efeito etílico, era possuidor de uma valentia sem tamanho e num arroubo afetado, costumava dizer: "olhe, eu tenho tanta coragem, que até a merda treme com medo de mim mesmo!".
Nosso homem, é desnecessário dizer, que nestas condições, era a graça da populaça, divertimento gratuito de crianças e de adultos. Para entornar mais o caldo, nestas horas, os mais afoitos inventavam uma estória que não tinha nada de verdade, ou seja, que sua honrada esposa tinha um chamego com um seu compadre e vizinho. Bastava o Mane arrotar*as valentias, que aparecia um não identificável que perguntava: "e o Chico de Aninha?" A gargalhada era geral. Vintém, sem se alterar e também sem se levantar, dizia: "você é um menino moço e eu não quero lhe estragar, porque se não, eu fazia você cagar macarrão numero doze". A gargalhada dobrava a intensidade.
Certa vez, vindo Deus sabe de onde, seu Mane cruzava ao meio a Praça José Augusto, por volta do meio dia de um verão seridoense, quando de repente, surgiu um gato que fugia de um cachorro, como manda a natureza. Naquela época, aquele logradouro era muito desprovido de vegetação. Era quase um descampado. Pois foi aí que aconteceu o impensável; o gato apavorado não vendo como escapar da citada perseguição, subiu de improviso até os ombros de Mane Vintém, zunhando* sua cabeça. Ai veio a parte mais engraçada, seu Mane deu de "garra" do gato com uma das mãos, e com a outra empurrava o cachorro que não passava de um “Vira lata”, e bradou: - ocês tão muito eqüivocado*; daqui a pouco vão querer mijar em mim! Xôô, bicho!
Doutra* feita, a cidade estava às escuras, pois ainda não havia chegado a energia de Paulo Afonso; nosso herói curtia uma Carraspana deitado numa calçada, quando um sujeito focou no seu rosto com uma lanterna. Foi aí que Mane Vintém saiu-se com essa pérola: "Apague essa porra seu fela da puta , qui o delegado daqui tem a mania de levar bebo* pra drumir* na cadeia; e eu num* quero que ele me veja não!". Uma pequena gargalhada do sujeito envolto na penumbra, que lhe disse: “Bora* Mane, entre na Rural que eu vou te deixar em casa". Era o delegado de Polícia.
Na Segunda feira, logo cedo, adentrava à oficina de carpintaria aquela figura calada, taciturna, como se nada de anormal tivesse acontecido. Dizem que já faleceu. É provável que tenha ocorrido, mas, imagens como as que percorremos, ainda não apagaram. Seu Manuel Vintém viverá por muitos anos na memória dos moleques do Seridó de outrora.
Natal - RN, out/2008. Gibson Azevedo da Costa
Observação: O eminente advogado o Dr. Francisco de Assis Medeiros, ex-prefeito de Caicó, popularmente conhecido como Chico Burra Cega, conta em seu livro "1968 em Caicó", lançado nos últimos dias do século vinte pela Editora ServGrafica & Copiadora Natal-RN, descreve uma cena diferente, da que aqui foi descrita, com relação ao episódio do gato e o cachorro com o velho Mane Vintém*. Inclusive, se colocando como testemunha do citado ocorrido. A bem da verdade, ele pode está coberto de razão, porem a versão que celebrizou-se no anedotário popular, foi a que modestamente descrevi. Assim sendo, sem polemizar, forneço o meu testemunho e dou fé!
Natal-RN,Outubro de 2008-10-01
Gibson Azevedo da Costa

2 comentários:

Camila disse...

Velho.... vim comentar aqui no seu blog... iwwww.... adooreii!!! bjo.

Camila disse...

Pai... lala ta mandando um bjo... e disse q vc vir logo q ela ta morrendo de saudades viuuu!!!!

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