Mais um pouquinho de reminiscências... Por favor, tolerem-me!
Fora de órbita
Eram um bom número... Eles têm todas as atenções das pessoas de bom coração; que contemplam com carinho, com ternura e bom humor, àquelas criaturinhas geneticamente imperfeitas que a natureza indiferente ao seu erro de criação coloca-as no seio da humanidade, dita sã, onde se constata serem inaptas de sozinhas sobreviverem a dura aventura de viver... Alguns são totalmente incapazes, com um elevado grau de dependência...; outros, com uma incapacidade mais leve, mais branda, vivem desviando-se das adversidades com a ajuda de uns, de outros..., de muitos. Esses erros naturais advêm, - crer-se-, da miscigenação irresponsável ou inocente entre seres consangüíneos, muito utilizada em pequenos clãs, em regiões remotas, de pouco ou nenhum contato com a civilização. É possível e justo pensar, que algumas vezes ocorrem como fruto de gestações, acontecidas em concomitância com algumas doenças crônicas e degenerativas. Dão frutos chochos, imaturos, encruados. "Atrofiados", como dizia meu avô paterno; referindo-se a alguns dementes que povoavam nossa região. Como foi dito em outra oportunidade, eram mansos os loucos de minha terra. Loucos que povoaram minha infância... Infância de menino pobre.
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Severino comunista em conversa com Teví Clemente(Caico-RN) |
Existia em Caicó, anos sessenta, oriundo das camadas mais pobre daqueles sítios, um indivíduo chamado Severino, conhecido, para seu desespero, como: "Severino comunista". Na cabeça de alguns cristãos sertanejos, versava uma estória que, no regime comunista, se comia, numa total antropofagia, criancinhas, e matavam-se padres e freiras; e era comum, em tais lugares, tomar-se, apoderar-se dos pertences dos outros, apossar-se do alheio, e mil e uma coisas abomináveis. Severino, só de pensar que o comparavam à gente dessa espécie, tremia de raiva e, não contendo-se, esbravejava, aos quatro cantos, onde quer que estivesse. Não havia, entretanto, naquela região, um varão mais "papa hóstia" do que ele. Católico fervoroso era, com muito orgulho, Irmão Mariano. Não perdia uma novena; muito menos uma missa; fosse esta, realizada a qualquer hora do dia ou da noite. Estava sempre presente às famosas missas das primeiras sextas feiras de cada mês (tão valorizadas pela Igreja Católica, como se isto fizesse alguma diferença ). Severino confessava-se - como se houvessem pecados para tanto - e comungava todos os dias. Participava de qualquer manifestação litúrgica, ou as ditas profanas, patrocinadas pela Paróquia de São José, no bairro da Paraíba. Não havia penitente mais enquadrado com os ditames da Igreja, que aquele inocente sertanejo. Se aquele modo de se conduzir e viver não assegurou sua solene entrada para o céu, creio, na minha humilde e modesta opinião, que cometeu-se uma grave injustiça nos tribunais celestes. Aquele viver ascético, de jejuns e penitências, asseverava uma beatificação imediata! Severino comunista, certamente, virou santo!..., ou então, virou xeleléu deles! É bastante factível.
Dos pecados que Severino confessava diariamente, alguns eram,certamente, os palavrões que soltava dentro da Igreja, quando era instigado a proferi-los pelos moleques inconseqüentes, que o chamavam pelo incômodo apelido. Era uma provocação feita sutilmente, de soslaio; com um baixo tom de voz, disfarçadamente......
A Igreja da Paróquia de São José foi concebida e construída no formato de uma cruz A nave principal onde se encontram o maior número de bancos, conseqüentemente, concentrando um maior número de fiéis, é cortada no nível do Altar Mor, no sentido perpendicular ao seu longo eixo, por dois apêndices laterais. Estes dois nichos, relativamente grandes, davam corpo aos braços da cruz. Por traz do citado Altar ficava a sacristia com suas subdivisões burocráticas, etc. Esta terminava, como previa o projeto da construção, o desenho do crucifixo. De maneira que, o celebrante ficava num ponto eqüidistante das partes laterais e a nave principal da Igreja; sendo visto por todos, independente do local onde estivessem. De uma parte lateral para a outra, passando pelo Altar Mor, avistava-se quem se encontrava do outro lado da Igreja. Naqueles lugares, tinha-se a vantagem de acompanhar mais de perto todo o cerimonial da Santa Missa.
Certo Domingo, feriado católico, igreja cheia, sentaram-se nos primeiros bancos, em frente um do outro, nas respectivas partes laterais da igreja: Ostenildo - moleque trabalhoso por aqueles tempos -, e Severino Comunista, piedoso e circunspecto "papa hóstia", nosso conhecido. Dependendo do celebrante, existem alguns momentos no cerimonial da Missa, que a Igreja, embora cheia, fica em total silêncio; um pesado silêncio... Foi num destes momentos, que Ostenildo chamando a atenção de Severino, com os olhos arregalados, numa mímica inconfundível com os lábios, mímica de fácil leitura labial, insistentemente, passou a chamá-lo de "comunista". E dizia:
- Cumunista! Psiu!..., cumuniistaa!!
Então veio, no meio do pesado silêncio,a desastrosa resposta:
- Cumunista é o corno do seu pai, cabra safado!! - Ói Pade Terço, esse muleque tá me chamano de cumunista!...
O Monsenhor Ausônio Tércio de Araújo,vigário daquela Paróquia por aqueles dias, era um homem bom; mas era sabido por todos, como sendo um indivíduo que tinha o pavio curto. Era de um temperamento muito forte. Ia da calmaria à afobação, em frações de segundos; e, ao olhar para o lado onde estava Severino, ficou vermelho de raiva, beirando à apoplexia, desconcentrou-se da cerimônia da qual era o celebrante, virando-se imediatamente para o outro lado, expulsando Ostenildo, sumariamente, das dependências da Igreja:
- Saia, moleque! Ruua!!... E voltando-se, continuou lentamente:
- Dominus vobiscum!!!
- Et com espíritu tuo!!... – respondeu meio a risotas, a assistência de muitos fiéis.
Natal-RN, 04 /Abril/2005.
Gibson Azevedo