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Juju das cachorras. |
Outro Juju nos
vem à cena... Este, um sujeito moreno, magro e ossudo, que havia dobrado o cabo da boa
esperança já excedia alguns anos. Entretanto, possuía a vitalidade de um jovem e a inocente alegria de uma criança. Detentor de
um rosto socavado, evidenciado por profundas rugas, era dono de provecta calvície; nele notávamos olhos escuros em órbitas fundas já se
avizinhando da cegueira, nariz arábico proeminente - talvez por conta do avanço
da idade. Completavam à sua fisionomia uma boca funda de pouco e maltratados dentes; além da barba e bigode sempre
por fazer. Para que não se cometa
nenhuma injustiça, e exibir como desculpa um indesejável esquecimento, é bom que se diga que tal figura não
era muito afeito aos banhos, exalando, por vezes, furtivos e azedos odores. Jujú,
querido e apreciado pelos seus concidadãos, era conhecido como:
"Jujú das cachorras"; alcunha adquirida por criar algumas cadelas e, também,
por conta do fabrico artesanal de correntes de arame que serviam para prender pequenos
“vira-latas". Alem da venda destas correntes, aquela figura
estereotipada engordava o seu apurado diário, recebendo alguns trocados
como pagas para divertir as pessoas mais afortunadas. A graça toda
estava no bizarro quadro que se nos afigurava logo ao entramos em contato com a sua estranha pessoa.
A rotina dos seus dias consistia
em empurrar um velho carro feito de
madeira; aqueles com quatro rodas e um
volante, que faziam um barulho característico ao se deslocarem
sobre as pedras das ruas pavimentadas. Pois bem, lá vinha Jujú empurrando
seu carro de mão, usando em excesso uma velha buzina, exagerando nas
escaramuças do seu trajeto, fazendo retumbar latas usadas que
talvez servissem para ser reutilizadas de alguma forma. Algum
objeto de plástico ou de madeira de utilidade duvidosa também fazia parte do
seu arsenal de cacarecos, matéria prima daquele maluco carreto.
Jujú caprichava em demasia na
maneira de vestir-se; era, embora de forma inusitada, vaidosíssimo com
o seu curioso visual. Usava óculos escuros com os seguintes detalhes:
eram constituídos de dois óculos diferentes; uma parte possuía uma armação plástica
de cor berrante verde ou azul e a outra parte com a armação, também plástica,
de cor também berrante vermelho ou coral. Essas partes eram
emendadas com arame, dando forma aos estranhos óculos, nas imediações do nasion
- ponto crâniométrico que fica acima do nariz e entre as sobrancelhas.
Protegendo-lhe a cabeça, víamos, quase sempre, um gorro de pala dura, em
plástico, popularmente conhecido como: "Bibico". (Este gorro, assim
como, um surrado par de coturnos, foram, - julgava-se - herança de
algum "meganha" camarada.) Suas roupas resumiam-se a um paletó escuro de
cor duvidosa - como também, incerta, era, a procedência daquela peça de roupa -
e uma calça de mescla, folgada, e com as perna ensacadas nos coturnos. Detalhes: não usava camisa por baixo do paletó,
o que não o impedia de usar gravata afixada no pescoço, com um famoso
“nó de porco” e algumas correntes de arame;
nos braços umas sucatas de relógio e uma “Ligeira”, feita de um pedaço de
mangueira, para afastar aos moleques inconvenientes e "maluvidos". Na
cintura, presa a um tosco cinturão, exibia uma espada de plástico; brinquedo de
algum guri em dias melhores. De plástico também, era urna corneta multicor em
forma de saxofone, com a qual solfejava e ao mesmo tempo cantava músicas de um
repertório louco, dançando e marcando o ritmo com pancadas dos coturnos
no chão. Na realidade, o aspecto final daquelas dantescas cenas era, em muito, semelhantes aos personagens
mais estereotipados de um Maracatu rural.
Só os sertões Nordestino são capazes de produzir tais coisas...!
Quando o perguntavam - uma vez que era
analfabeto-, o que ele tanto anotava em uma agenda reciclada que ele guardava no bolso do terno,
não se fazia de rogado, e exibia, orgulhoso, suas
anotações. Eram rabiscos estranhos que só faziam sentido naquela obscura
cabeça.
- "Jujú, que
riscos são esses dois, que estão aqui juntinhos?"
- "É a musga do cabo...,
aquela: "Cabo Tenóro, é o maior ispetô de quartêrão!"
- "Jujú, e esse risco em
pé?"
- "E num é a musga
da istáuta?": Tués... , divina e
grachiosa, istáuta masestósíca..."
E pensar que, dos Jujus citados, só restaram saudades... Incrível, mas é verdade!
Gibson Azevedo da Costa.
Um comentário:
Caro Gibson, somente agora encontrei, no blog Sebo Vermelho, seu comentário sobre o caso do meu poema "Armadura" usurpado pelo sr. Plinio Sanderson, e 'batizado' como "Carma".
Fico-lhe grato pela solidariedade, por suas palavras que me servem de conforto, pois o que aconteceu ainda muito me incomoda, por mais que o sr. Plinio tenha meses depois se manifestado com explicações que não me convencem.
Um abraço,
Nirton
www.nirtonvenancio.blogspot.com
www.olharpanoramico.blogspot.com
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