Para os
poetas o tempo é um detalhe.(Parte I)
Já faz alguns dias, na
verdade mais de mês, da morte do poeta nordestino Ronaldo Cunha Lima. Não nos
custa fazer uma pequena avaliação da sua vida, já que a emoção do seu encantamento
inevitavelmente esmaeceu, para estabilizar-se aos níveis da normalidade. Assim
sendo, sentimo-nos mais confortável para tecer-lhe algum comentário, distante
dos arroubos de louvações de corpo presente e dos réquiens (“dai-lhes o
descanso eterno”), naturalmente dedicado aos mortos ilustres. Longe estamos,
cada vez mais ficando, de suas exéquias, e assim, como nos afastamos
instintivamente para melhor observarmos a dimensão, a beleza, a real aparência
de algum monumento grandioso, também, na medida do aumento da distância desde o
dia que ele se foi do nosso convívio, podemos sentir a real estatura do poeta
da Borborema. Grande homem!
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Material de propaganda eleitoral. |
Recordo que
ao chegarmos a Natal, advindos da região do Seridó, no finalzinho da década de sessenta,
na nossa casa, como na grande maioria das residências dos natalenses, não havia
aparelho televisor. Isto só viria a acontecer, por ocasião dos jogos da Copa do
Mundo de Futebol, no ano de mil novecentos e setenta. A partir daí tínhamos,
diariamente, acesso a programação de TV Jornal do Comércio da cidade do Recife,
grande Meca para os nordestinos de então. A grande Mauricéia espargia cultura a
todos os recantos do Nordeste brasileiro. E não podia ser diferente, pois foi
naquela cidade que se inaugurou a primeira faculdade de Direito do nosso país.
Foi berço de grandes juristas e poetas, e onde prosperou as primeiras idéias de
liberdade nos primórdios da nossa nação. Pois bem, recebíamos o sinal daquela emissora
de televisão e, através dela, tínhamos acesso aos programas de entretenimento criados
e difundidos desde são Paulo e Rio de Janeiro, no centro-sul do país. Dentre os
tais programas, existia um de perguntas e resposta, de muito sucesso, de nome
“o céu é o limite”, apresentado pelo famoso animador Jota Silvestre.
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Programa "O céu é o limite". |
Logo que eu assisti aos primeiros citados
programas, me inteirei da participação de um jovem Senhor nordestino chamado Ronaldo Cunha Lima que, sendo poeta, respondia
sobre a vida e a obra do maior poeta sonetista da literatura brasileira, o
também paraibano Augusto dos Anjos. Era
uma maravilha, ver aquele moço responder, à maioria das vezes em versos -
quadras ou sextilhas - as questões que lhe eram perguntadas sobre a vida e a
obra daquele grande poeta. O “Eu”, único livro publicado por Augusto, era
semanalmente esmiuçado - no bom sentido - por aquela sabatina cultural. A
alegria ia de “vento em popa” quando, subitamente, sem maiores anúncios, aquele
segmento destinado ao entrevistado Ronaldo deixou de existir. Assim..., como se
nunca tivesse existido. Este fato logo gerou muitos buchichos, e foi através
destes que eu me aproximei da verdade sobre a vida de Ronaldo Cunha Lima. Ele, um jovem advogado, havia sido eleito
prefeito de Campina Grande, uma das maiores cidades do interior do nordeste
brasileiro, vinha fazendo uma administração exemplar frente ao executivo
daquele município, voltada explicitamente para as camadas menos favorecidas da
população, quando foi colhido pela violência do truculento regime implantado
por um desnecessário “golpe de estado”, uma verdadeira “quartelada”, ocorrido
no ano de mil novecentos e sessenta e quatro, fato que jogou por terra todas as
prerrogativas constitucionais, anulando, no nosso jovem país, todo tipo de
direito. Era a barbárie!... Iniciava-se
o período ditatorial – ditadura militar... (Continua...).
Natal-RN, 10 de setembro de 2012.
Gibson Azevedo - poeta.
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