Apesar de
sermos mutantes por natureza, seria realmente necessário chegarmos ao rés de
chão?...
Almoçava Renato
Caldas, no pino do meio dia, numa segunda feira ensolarada – já distante
algumas décadas – no vale do Açu, momento no qual também ouvia o seu programa
radiofônico favorito: “O corruchiado de João Machado”. Este era um programa esportivo
onde o Dr. João Cláudio de Vasconcelos Machado – Presidente da Federação
Norteriograndense de Futebol, bacharel em Direito formado em Londres,
funcionário público e jornalista por adoção – conduzia, com grande sucesso, uma
espécie de resenha esportiva com muita irreverência e picardia. Ali,
mandavam-se recados para as liga interioranas de futebol amador, marcando datas
dos jogos e até rachões de várzeas, nos quais se comunicava, antecipadamente, o preço das senhas e o local das tradicionais feijoadas, que se
sucediam aos citados rachões. Havia também, recados marcando batizados de
crianças, alertando-se aos padrinhos das suas imprescindíveis presenças, e, notícias
de algumas singelas efemérides, etc., etc., etc. Por fim, notícias do incipiente
futebol profissional da nossa capital.
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Dr João Machado |
Nos comentários Machado
evidenciava, com ênfase, os aspectos técnicos, contusões, contratações e também
dava opinião sobre as arbitragens. Apesar de bem humorado era, um homem
extremamente sério, duma honradez a toda prova. Jamais se ouviu o mais tênue
comentário com o seu nome envolvido em “coisas mal havidas”. Jamais! Entretanto,
no domingo anterior àquela segunda feira, o Estádio Juvenal Lamartine havia
sido palco de um acirrado clássico de futebol, envolvendo os dois times de
maiores torcidas da nossa cidade, à época ainda muito provinciana. Naquele ABC
x América, houvera toda sorte de irregularidade, que contaram com o beneplácito
aval do árbitro da partida: pênaltis inexistentes e outros não marcados; gols
mal anulados; outros validados em total impedimento; gol de mão e discutíveis expulsões,
etc., tudo isto, “sua excelência” usou, para acomodar um confortável resultado
que não comprometesse a sua integridade física.
Desnecessário
é, dizer que aquela resenha realizou-se em clima de conhecido tumulto entre os
torcedores; que se sentiam lesados por uma arbitragem que entendiam parcial e,
desonestamente, excedera os limites da rapinagem. Não se conformavam com o fato
do Presidente da Federação encontrar-se nas dependências do estádio, assistindo
ao jogo na Tribuna de Honra e, não tomar nenhuma atitude contra aquele
vergonhoso imbróglio...
Natal-RN 23 de outubro de 2012.
Gibson Azevedo - poeta
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