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O Lobo do povo num ameno "convercê". |
O mestre Geraldo lobo, Lobinho, Lobo do Povo
como era mais conhecido, era um cidadão palrador por vezes em demasia. Era,
porem, muito querido pelos seus concidadãos. Nas suas andanças e caminhadas,
sempre as fazia a Aristóteles, com o hábito peripatético conversando ou
declamando um pseudo-discurso cheio de palavras arrevesadas, a maioria, obra de
sua criação. Pena que o nosso idioma pouco permite os novos termos -
neologismos. Desperdiça-se com isto uma
grande riqueza de novos verbetes. Adorava
fazer discursos. Por qualquer motivo... E quando no meio dalguma de suas falas
notava na assistência algum burburinho de conversas paralelas, irritava-se e
advertia: “Silênço, minino! Quem ta falano agora é um homi!” Não raro ele
ameaçava não continuar com a sua oração, mas que, era imediatamente acalmado
pelas desculpas salvadoras e desta maneira o” improviso” continuava... O Lobo não tinha uma profissão definida.
Dizem os mais velhos do Lugar - Jardim do Seridó-RN -, que quando ele era jovem gozava de muita saúde.
Exercia a função de carregador d’água para o Jardim Hotel, sendo, à época, um
homem muito forte, de muita força. Entretanto, a vida tem os seus próprios
caprichos e quando menos se esperou, a Tísica tolheu a saúde daquele titã. Não
podendo mais trabalhar naquele serviço braçal, mais recomendado aos organismos
mais fornidos dos Cabras mais parrudos, Lobinho, por sobrevivência, dedicou-se
aos afazeres mais adequados a um organismo mirrado, ainda mais, sendo um homem
analfabeto. Dedicou-se a pedir ajuda aos amigos e conhecidos, ser portador de
alguns recados, passava algumas rifas e... , poucos sabem, agenciava algumas
mulheres de vida fácil ou casadas enrustidas que viviam vida dupla. Era
verdadeiramente um sobrevivente!... Apesar disto, nunca se furtou em ajudar aos
menos afortunados do que ele. Muitos Jardinenses receberam algumas gentilezas
dos seus favores.
Geraldo Lobo era
um excelente contador de “causos”, muitos deles difícil de acreditar. Por
exemplo: dos tempos nos quais era funcionário do Jardim Hotel no abastecimento
d’água, contava-nos que presenciou o coletor Federal conhecido por Fragoso,
bêbado que só um gambá, no salão principal daquele arranchamento, em pleno
domingo de carnaval, agarrado aos testículos do Juiz de Direito, o Dr. Hilarino,
balançando o corpo como se dançasse,
cantarolando “a Jardineira”. Afiançava que de longe se ouvia os gritos do
importunado magistrado: “Solta meus o---, Fragoso!”
Lobinho tinha seus
momentos de afobação... Na década de
sessenta, após uma campanha política acirrada, a cidade ficou em pé de guerra
com as famílias se estranhando, tornando-se hábito, de parte da população, a
desobediência civil. Neste clima, chegou um novo delegado de polícia com o aval
do novo governo para tomar as medidas que fossem necessárias, legais ou não,
para restabelecer a ordem pública. O Ten. Costa tomou medidas as mais
arbitrárias que se podia imaginar e implantou-as àquela pequena comuna. Ficaram
proibidos: serenatas; ajuntamentos; manifestações, mesmos as espontâneas;
instituiu o antipático “toque de recolher”, rasgando desta forma o direito
constitucional de ir e vir; e ai de quem desobedecesse a suas esdrúxulas
determinações!... Neste seu calhamaço de
medidas proibiu também que se passassem rifas, visando com isto prejudicar
Geraldo Lobo, adversário que era da nova Ordem. Como Lobinho não o obedeceu,
determinou a seus asseclas que o prendessem. Não havendo maiores motivos legais
para mantê-lo cativo, relaxou a prisão e o libertou. No momento da sua soltura,
Lobinho virou-se para o delegado e disse: “É melhor o Sr. não perder seu tempo
e mandar logo um soldado me prender novamente, pois, agora mesmo, eu vou passar
outra rifa!” Não foi mais importunado. Entretanto,
como ele gastava de botar apelido nas outras pessoas, quando lhe perguntaram
pelo novo delegado, ele por deboche respondeu: “É um Ponche Salobro!” O
delegado Costa, daí em diante, até o momento que sumiu daquele município, ficou
conhecido pela alcunha de Ponche Salobro. Bem feito, ninguém pode mandar em
tudo!
Certa vez presenciei, na loja da COFAN,
uma discussão do Lobo do povo com um vereador de Ouro Branco, que eu não
recordo o nome, e que aparentemente estava alcoolizado. O edil ourobranquense,
falando meio fanho, disse que Cortês Pereira – governador do Estado - era um safado,
quando Lobinho protestou dizendo que o safado era ele. O parlamentar reagiu
querendo ir às “vias de fato”, mas neste instante Lobaço o aberturou (aberturar
significa imobilizar o adversário segurando-o com força pela parte da frente do
colarinho da camisa, ao nível do pescoço), jogando-o por cima de umas lâminas
de arado, que estavam estocadas a um canto da sala e bradou: “Ói, Seu Papangu,
você se empine e num venha!...”
Por sorte, aquele
entrevero foi acalmado por alguns populares que se encontravam no local. Jamais
me esqueço daquela singular porfia...
Eita Jardim que não
volta mais!
Natal-RN, 11 de
dezembro de2012.
Gibson
Azevedo – poeta.