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Preparação de chuva - nuvens carregadas. |
De tão nefasta, a seca chega
a nos dar saudades dos anos de boas chuvas... Nestes dias, nos quais mais uma
vez o Nordeste padece com as agruras de, talvez, mais um ano de seca em sequência ao negro período de estio do ano que findou, vê-se avizinhar a
certeza da tragédia da “terra calcinada” na qual esta região se transformará – local,
onde não sobreviverá a maior parte da sua fauna e da flora. Restarão apenas
alguns espécimes de vegetação nativa. Nas velhas caatingas somente serão
ouvidos os cansativos e irritantes zumbidos das cigarras e o farfalhar fantasmagórico
de galhos secos ao sabor dos açoites das fortes virações. Deste quadro, o mais terrível é escutar o
berro da dor da fome da inocente alimária que aos poucos, ofegantes, perdem
suas vidas. É triste a constatação, por parte destes pobres animais, que as
costumeiras e acolhedoras “Bebidas”, do refrigério de sempre, não mais existem.
Mesmo assim, ficam estes inermes animais a cheirar a terra seca onde outrora
houvera água. Este é o maior significado de saudade que já tomei conhecimento
na minha modesta existência. É um sentimento sentido por um “Ser bruto”, que,
do âmago das suas mais basilares necessidades, lembra a delícia e o bem que lhe
fazia aquele precioso líquido. Estes animais, ante ao inevitável desastre, vão
se exaurindo nas suas forças e extinguem-se. Não costumo criticar as forças
naturais, mas diante desta miséria não me furto em dizer: que coisa estúpida!
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Choveu pouco - pouca água no reservatório. |
Um dia destes caiu em minhas mãos
um poema feito em decassílabos, que tinha um mote fabuloso: “O Nordeste se
enfeita e se perfuma / Quando o pranto das nuvens se derrama". Ao tomar
conhecimento deste mote perfeito, também o usei para, inspirado, fazer uma sincera
poesia, uma glosa, já que a saudade de melhores dias se aloja no meu peito
sertanejo, ensimesmado e macambúzio com mais esta tragédia climática que se
abate sobre a nossa região. Vejamos:
Mote:
O
Nordeste se enfeita e se perfuma
Quando o
pranto das nuvens se derrama.
Glosa:
Juramentos e propostas vêm “de ruma”,
Em
resposta aos efeitos pluviais,
Veem-se
ao vivo os amores Celestiais:
O Nordeste se
enfeita e se perfuma!
E nas longas
noites, de boa bruma,
O desejo
nordestino se inflama,
No
aconchego da rede ou da cama,
Chispando vida nova, em centelhas:
Um bater
de sinos no barro das telhas,
Quando o pranto das
nuvens se derrama!...
Natal-RN, 18 de
outubro de 2012.
Gibson Azevedo – poeta.
2 comentários:
Meu caro Gibson
o seu poema é tão belo como benfazeja é a chuva que chega «e se derrama» na terra, depois de um sofrido tempo de seca. Aqui, a última bem severa aconteceu em 2005. Foi um momento de muito agradável e profíqua leitura, este. Obrigado.
Um grande abraço lusitano.
Obrigado digo eu, meu caro Jorge, pelas suas simpáticas palavras.
Um forte abraço ao povo Lusitano nestas horas de dificuldades...
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