
O tempo
O mundo nunca foi nem jamais será o mesmo; pois, o seu feitio*, encontra-se sempre numa eterna transformação nos seus reinos materiais, vivos ou não, ao sabor dos sons surdos das eras*. Eras antigas, cobertas de heras*..., limo* dos tempos, azinhavres* seculares de incontáveis períodos. Todavia, como manda a boa lógica: "o passado e o futuro não existem!"; devemo-nos ater ao presente, que solitariamente restou-nos desta interessantíssima reflexão. O passado fínou-se ao exaurir-se o presente. Passou e não mais existe (deixou-nos, entretanto a reles impressão de nos agraciar com alguma experiência, quando na realidade só o presente importa). O futuro..., deveras, é mais fictício que o passado. Este, nunca aconteceu; não nos pertence..., fica por conta do tempo, essa medida inventada...
Apesar da certeza da ineficácia das surreais imagens do passado, porquanto já haverem existido, constata-se que: no mundo antigo, os objetos, os artefatos, os mecanismos, as idéias e tudo o mais, eram concebidos e executados de forma rebuscada; enaltecendo, alem do efeito ou do uso propriamente dito, o seu aspecto, seu acabamento; premiando-nos com um visual suavizado nas curvas e nos contornos. Na atividade fabril*, pecava-se por um excesso de zelo; onde não importava o uso farto de material, no reforço e na aparência - hoje, desnecessário aos canhestros objetos da indústria moderna, que prioriza ao brilho das tintas e vernizes, e aos mecanismos de desempenho temporário, luzindo e zunindo, sonorizados, a iludir nossos egos* de bobos...
Alguns avanços evidenciaram-se em concordância com a evolução do "pensamento humano" - redundância? -, no desenrolar imperturbável dos milênios. Notaram-se melhorias nos transportes, na produção de alimentos, na preservação da memória, nas comunicações e na diagnose químico-eletrônica de algumas doenças. Afora isto, poucas benfeitorias genuínas pôde-se creditar aos tempos modernos. Os aparelhos, os objetos, os mecanismos fabricados em priscas datas, geralmente, não se faziam acompanhar de nenhum certificado de garantia. Estes eram desnecessários; pois aqueles produtos duravam uma vida! Um tempão! Tem deles, que ultrapassaram de um século ao outro, com "banca" * de bicho novo. Conservaram-se, não se sabe como, com improváveis resquícios de beleza e serventia.
O fabrico moderno, os seus produtos*, intencionalmente, não ultrapassam à primeira década, sem que haja a sua transferência infamante para uma lixeira ou na melhor das hipóteses para uma sucata. Não proporcionariam bons lucros, se durassem em demasia... E não permitiriam o amealhar descomunal na construção de nocivas e incalculáveis fortunas.
O que nos vendem são cacarecos de reinados curtos, brilho fugaz, vidas meteóricas. No entanto, pode-se ouvir dizer:
"Essas tralhas todas, são imprescindíveis à vida humana!"
Serão? O homem, não viveria melhor sem essa parafernália?* Serão mesmo, imprescindíveis?
"Mas, os tempos modernos, deram aos seres humanos uma maior expectativa de vida; vive-se, atualmente, até uma idade mais avançada, etc., etc., etc."
Diante dos argumentos supracitados, ensimesmamo-nos com a intenção de refleti-los; avaliando uma sobrevida antí-natural, segregária, limitante e castradora, ousamos perguntar:
- E quem disse que o ser humano teria a obrigação de viver até largar à pele dos ossos? Já observaram o aspecto geral de algum ser senil? É revoltante!
* * *
Se, se vivia melhor no passado, são temas de muitas e acaloradas discussões. Contudo, cuidamos haver, nos tempos idos, a possibilidade de uma vida mais salubre. Essencialmente, para os mais pobres; habitantes que eram de ambientes mais arejados e secos, e em condições menos estressantes* que as advindas do constante, insistente, miserer* de vida dos dias atuais. Atualmente, olhamos à pobreza e encontramos miseráveis. No passado, quando, involuntariamente, nascia-se pobre, sobrevivia-se à duras penas; contudo, mantinham-se valores; tinha-se honra.
A felicidade cobria com seu manto invisível as alminhas inocentes dos nossos irmãos do passado. Estes nem se davam conta da sua presença. E o que é ser feliz? Talvez sejam, pequenas coisas..., ou até mesmo nossas manias, cacoetes* e defeitos... Nada nos assegura do contrário!
2 comentários:
Caro amigo Gibson
excelente texto!
Eu sou, por natureza, saudosista. Como tal, para mim, o passado é de extrema importância. Ele me explica porque razão, na actualidade, funciono desta ou daquela maneira. A minha vida é o reflexo do que construí nesse passado, bem vivo na minha memória. Sem um passado é impossível aspirar a um futuro.
É claro que a vida de outrora, o meu outrora, me deixa saudades em alguns aspectos. E um deles é precisamente os valores que existiam na sociedade, há duas ou três décadas atrás, valores esses que o «progresso» mental, social e «democrático» corroeu. Hoje pressentem-se apenas uns fogachos, que teimosamente sobrevivem no seio de alguns resistentes.
E com esse desenvolvimento do homem, veio a desmesurada necessidade do consumo. No caso do meu país, um Portugal pobre, consome-se de tudo desenfreadamente, como se não houvesse amanhã. E, quando é para manter uma fachada, então é de fugir. Pode-se ter fome em casa, mas convém ter um bom carro à porta e andar-se no bolso com telemóvel de última geração. que faz não sei quantas funções inutéis, mas que empresta status a quem o tem. E como é a lei do consumo, e do interesse de fazer dinheiro por parte de quem produz o que se consome, é razoável, útil e lógico que o que se produz não seja produzido para durar muito tempo, pois que a alma do negócio está em transformar em descartável o que deveria ser duradouro. Não faria bem ao negócio nem ao consumidor- que chatice, andar a utilizar o mesmo objecto não sei quantos anos- raios partam o traste!
Meu caro amigo, que saudades eu tenho dos tempos em que, na presença de uma senhora, tinha-se tento na língua. Hoje são elas que, antes de qualquer homem, deitam da boca para fora o mais obsceno asneiredo.
Aos bons velhos tempos!
Um grande abraço, meu caro Gibson.
"Gracias", caro poeta, por teres atentado, num Ler pausado,para esses Pensares de um homem já maduro, onde o desânimo já se anuncia.
Ajuizando melhor, o passado, para nós os curtidos pelo Viver de vários anos, parece ser o úníco saldo. Que pena!...
Grande abraço, amigo Fareleira.
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